Cósmico leitor,
Quando alguém decide começar a escrever, uma das maiores armadilhas é tentar “fazer tudo” logo no início. O primeiro mês não é para produzir algo grandioso, mas para criar vínculo com a escrita. É o período em que você ensina ao seu corpo e à sua mente que escrever faz parte da sua vida, mesmo sem aplausos e resultados imediatos.
Por isso, o ideal é trabalhar com exercícios simples e possíveis, que diminuam o medo da página em branco e estimulem a constância.
Uma boa estratégia é ter pequenos pontos de partida, quase como portas destrancadas.
Hoje veremos 10 ideias práticas para o primeiro mês de escrita.

Imagem ilustrativa gerada com IA para fins visuais.
1 – Use temas curtos e não temas gigantes
Em vez de “escreva sobre sua infância”, experimente algo mais específico:
- uma memória ligada a um cheiro;
- um lugar onde você se sentiu deslocado;
- uma conversa que nunca aconteceu;
- um objeto que você guarda sem saber por quê;
- uma comida que te faça lembrar coisas boas.
Temas funcionam porque retiram a obrigação de “inventar tudo”. Eles oferecem um ponto inicial, e o resto vem no caminho.
2 – Reescreva memórias simples
Escolha um momento cotidiano e escreva sem floreios:
- um café tomado sozinho;
- uma espera em uma fila;
- um domingo comum;
- uma viagem curta.
Depois, se quiser, reescreva o mesmo momento de outra forma (mais poética, mais direta, como se fosse um roteiro ou uma carta). Esse exercício ajuda a perceber como sua voz muda dependendo da intenção, e isso é riquíssimo para quem está começando.
3 – Trabalhe com limites claros
Paradoxalmente, limites libertam.
Defina regras simples:
- escrever apenas 150 a 300 palavras;
- escrever por 10 minutos sem parar;
- não apagar nada enquanto escreve.
Isso evita o desgaste mental e cria a sensação de tarefa concluída.
É algo essencial para manter o hábito.
4 – Separe escrever de revisar
No primeiro mês, escrever e revisar ao mesmo tempo costuma travar o processo. Escrever é fluxo. Revisar é análise. Misturar os dois cedo demais gera autocensura.
Se algo soar ruim, deixe soar. O texto pode ser lapidado depois. Agora, ele só precisa existir.
5 – Tenha um “arquivo de restos”
Crie um lugar para guardar frases soltas, ideias incompletas, imagens que surgem no meio do dia. Não subestime esses fragmentos. Muitas narrativas nascem justamente do que parecia pequeno ou desconexo.
Esse arquivo é um lembrete importante de que você está escrevendo, mesmo quando não está sentado escrevendo.
6 – Aceite dias vazios
Alguns dias o texto flui. Outros, não. E isso não significa fracasso, não. Na verdade é um baita progresso.
O primeiro mês não pede consistência emocional, pede apenas presença. Sentar, tentar, escrever algo. Mesmo que pareça pouco. Mesmo que pareça inútil. Com o tempo, esses dias “menores” sustentam os dias em que tudo se abre.
Escrever começa pequeno. Sempre começou.
E é assim que se constrói algo que dura.
7 – Use perguntas como “motor” do texto
Quando faltar assunto, não procure respostas, procure perguntas.
Perguntas abrem caminhos porque não exigem conclusão, só movimento.
Alguns exemplos disso:
- O que eu ainda não entendi sobre mim?
- O que mudou em mim nos últimos meses?
- O que eu evito lembrar?
- O que eu gostaria de dizer, mas nunca disse?
Escreva tentando responder uma única pergunta por vez. Mesmo que a resposta seja confusa, ela já é escrita acontecendo.
8 – Escreva cenas, não explicações
Em vez de explicar sentimentos, tente mostrá-los em ação.
Ao invés de: “Eu estava triste.”
Tente assim:
- o que você fez enquanto estava triste?
- o que você evitou fazer?
Cenas tornam o texto mais vivo e ajudam você a confiar menos em explicações prontas e mais na experiência concreta.
9 – Leia como quem aprende e não como quem se compara
No primeiro mês (e nos próximos também), a leitura pode ser aliada ou inimiga. Isso depende da forma como você se aproxima dela.
Leia observando:
- como o texto começa;
- como termina;
- como o autor entra e sai de cenas;
- como descreve algo simples.
Não leia para medir sua escrita. Leia para entender possibilidades de construção.
10 – Finalize mesmo quando não parecer bom
Um erro comum de quem começa (inclusive foi um erro meu) é abandonar textos no meio porque “não estão bons o suficiente”.
Finalize. Mesmo que o final seja simples e mesmo que você não goste.
Concluir ensina mais do que recomeçar sempre.
É no fim que você entende o que estava tentando dizer desde o início.

Imagem ilustrativa gerada com IA para fins visuais.
O primeiro mês de escrita não pede brilho, pede presença.
Não pede grandes textos, pede continuidade.
A escrita não se revela inteira no começo.
Ela se deixa conhecer aos poucos, quando você insiste em voltar.
E voltar, muitas vezes, já é escrever.


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