Cósmico leitor, há dias em que o impossível só está esperando o horário certo pra se manifestar. E o Halloween, convenhamos, é ótimo nisso. É a única noite do ano em que estranhar o normal parece mais natural do que aceitar que tudo continue como sempre foi.
Este conto nasceu de uma pergunta boba, dessas que a gente faz sem esperar resposta “e se, só por uma noite, os silêncios ao nosso redor decidissem parar de ser silêncio?” A ideia de que o mistério pode morar até num miado, e de que às vezes o mais assustador não é o desconhecido, mas sim, perceber que nossas dúvidas finalmente resolveram responder.
Prepare o café (ou a poção, se for o clima da noite) e vem comigo conhecer o Tobias.
O dia que o meu gato decidiu falar
Eu, Luna, sempre desconfiei que meu gato, o Tobias, me julgava em silêncio. Aquele olhar fixo, superior, de quem acha que a dona é um projeto experimental da humanidade que deu errado. Uma tentativa mal executada, sem manual de instruções.
Mas tudo bem. A gente convivia em paz, cada um no seu papel. Eu falava, ele miava, e assim o equilíbrio cósmico se mantinha.
Até o Halloween.
Naquela noite, a energia da casa parecia diferente, quase elétrica. O vento lá fora batia na janela e fazia a luz piscar, como se a própria eletricidade estivesse hesitando entre continuar ou desistir do dia. Tobias estava sentado em cima da mesa, absolutamente imóvel, encarando uma vela acesa com uma concentração que eu nunca tinha visto nele. Nem quando eu abria uma lata de atum.
— Vai botar fogo no bigode — eu disse, tentando soar normal.
Ele piscou devagar, virou o rosto na minha direção e respondeu, com toda a calma do mundo:
— E você vai continuar com essa blusa horrível?
Silêncio.
Não aquele silêncio poético que a gente descreve em livro. Silêncio absoluto mesmo, do tipo que pesa no ar.
Fiquei imóvel, como se meu cérebro tivesse travado igual aba de navegador com trinta guias abertas.
— Você… você falou?
— Ah, então agora você me ouve — ele suspirou, esticando as patas dianteiras devagar, como quem finalmente pode relaxar depois de anos de silêncio forçado. — Faz três anos que tento conversar com você, mas você sempre acha que é miado.
Eu ri. De nervoso, claro, daquele jeito que a gente ri quando o corpo não sabe se deve entrar em pânico ou continuar sentado.
— Tá bom, deve ser sonho.
— Se for sonho, você precisa melhorar o roteiro.
Tobias revirou os olhos, se é que gato consegue fazer isso, e pulou da mesa com a elegância de quem pratica esse movimento há séculos, indo direto em direção à geladeira.
— Já que estou com voz, posso pedir comida humana agora? Porque essas rações secas são uma ofensa, sinceramente. Uma afronta ao meu paladar.
— Tobias, isso não é normal!
— Normal é discutir com um gato e esperar que ele não responda — ele disse, sem nem se virar.
Sentei no chão, meio rindo, meio repensando todas as minhas decisões de vida. Ele se deitou no tapete, como se fosse o terapeuta da sessão.
— Relaxa — ele disse, sem tirar os olhos do teto, parecendo que já tinha visto esse filme muitas vezes. — Aparentemente, isso só acontece uma vez por ano. Dia 31 de outubro. À meia-noite, eu perco a fala de novo. Já vou avisando que nos próximos Halloweens, você fica por aqui. Eu também quero minha hora de conversa.
— Isso é algum tipo de feitiço?
— É tédio. Gatos têm nove vidas e nenhuma série boa pra assistir nelas.
A vela estalou, e uma sombra dançou na parede.
O relógio marcou 23h59.
Tobias se aproximou, sentou-se na minha frente e me encarou com uma seriedade quase solene:
— Foi bom conversar. Mas, por favor, troca de blusa antes que eu volte a miar.
E quando o relógio bateu meia-noite, ele voltou ao silêncio de sempre, com aquele mesmo olhar de superioridade.
Mas eu juro que antes de fechar os olhos, vi um leve sorriso no focinho dele.
Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Obrigada por ler até aqui, cósmico leitor, e por dividir esse Halloween cheio de mistério e uma pitada de humor, com a gente.
Entre versos e universos,
Julia Abreu



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