Cósmico leitor, todo final de mês,o Cósmica abre espaço para brincar com as palavras e lembrar que a escrita também é um lugar de encantamento. E já que o tema deste mês gira em torno de como a leitura alimenta a escrita, pensei no que aconteceria se as histórias resolvessem atravessar o papel. Literalmente.
O texto de hoje é um conto leve e completamente despretensioso sobre uma leitora que descobre uma livraria nada comum. Lá, os livros emprestam personagens, ao invés de só contar histórias. É um lembrete, ou uma piada cósmica, de que toda boa leitura acaba nos escrevendo de volta. Aproveite.
Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Eu só queria um livro.
Um simples romance para ler antes de dormir, algo que me ajudasse a fingir que minha vida tinha diálogos melhores. Nada ambicioso.
Mas a livraria da esquina, aquela que eu nunca tinha notado apesar de passar ali todo dia, parecia ter outros planos.
A fachada era estreita demais para o tamanho que tinha por dentro. Prateleiras do chão ao teto, um cheiro de papel velho que não era desagradável, e um senhor de terno azul sentado atrás do balcão com o sorriso tranquilo de quem sabe de coisas que você não sabe.
Ele me olhou por cima dos óculos e perguntou, com a naturalidade de quem oferece um saquinho plástico:
— Vai querer só o livro, ou também o personagem?
Achei que fosse brincadeira. Ri.
Ele não riu.
Assinei um papel com letras tão pequenas que pareciam formigas em processo de alfabetização, sem ler nada porque sou exatamente o tipo de pessoa que faz isso, e saí de lá com um volume antigo chamado “O Cavaleiro e o Gato que Raciocinava”.
Até aí, tudo bem.
Só que naquela noite, quando já estava quase no terceiro capítulo, o tal cavaleiro apareceu na minha sala. Com armadura e espada. Com uma expressão de indignação medieval que não combinava nada com a luz do abajur.
Me encarou.
— Onde está o dragão? — ele perguntou, limpando o suor inexistente da testa. — Fui invocado. Não vejo perigo algum.
Fiquei olhando pra ele por uns bons dez segundos. O tipo de pausa que acontece quando o cérebro desligou e está tentando reiniciar.
— O dragão… saiu pra jantar — foi o que consegui responder.
Ele ficou ofendido. Muito ofendido. Do tipo de ofensa que só um cavaleiro medieval pode sentir quando descobre que não há nenhuma ameaça épica esperando por ele na sala de um apartamento de dois quartos.
Antes que eu pudesse processar a situação direito, apareceram mais dois. Uma bruxa que reclamava do roteiro em voz alta e um gato que falava com a postura de quem tem doutorado em linguística e paciência zero para erros gramaticais. Aparentemente o mesmo gato do título, com opinião formada sobre tudo.
Os três não paravam de falar ao mesmo tempo. A bruxa queria renegociar o arco dela. O gato me corrigiu duas vezes em menos de cinco minutos. O cavaleiro, sem dragão à vista, decidiu redirecionar a energia e investigou minha cozinha com o entusiasmo de quem nunca viu um micro-ondas e está convicto de que ele é uma armadilha mágica.
Na manhã seguinte, voltei à livraria.
O senhor de terno azul sorriu ao me ver entrar. Completamente sem surpresa.
— Vieram todos? — perguntou.
— Todos. E estão reorganizando minha cozinha por critérios que só fazem sentido no século XII.
Ele deu de ombros com a serenidade de um homem que já viu isso muitas vezes.
— Acontece com quem lê demais de uma vez.
— Como eu devolvo? — perguntei, com a voz de quem não dormiu direito.
Ele me entregou um bilhete dobrado e disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:
— Escreva o final. Só assim eles voltam pra casa.
Voltei correndo. Abri o notebook e comecei a digitar.
O cavaleiro, que estava tentando convencer o gato de que o liquidificador era um artefato demoníaco, parou o que estava fazendo e veio olhar por cima do meu ombro.
— Posso dar uma sugestão? — ele perguntou.
— Não — eu disse.
Ele deu a sugestão assim mesmo. Uma sugestão longa, estruturada, com referências a batalhas que aconteceram em séculos que não existem mais.
O gato discordou de tudo e apresentou uma contraproposta.
A bruxa se recusou a participar a menos que o arco dela fosse revisto.
E foi assim que aprendi, da forma mais inconveniente possível, que escrever um final não é nada simples quando os próprios personagens estão sentados do seu lado dando pitaco.
Mas também aprendi outra coisa.
Que ler até o ponto em que os personagens parecem reais, tão reais que você poderia ouvi-los falar, que você sabe exatamente como reagiriam a um micro-ondas ou a uma batalha inexistente, esse é o sinal de que você encontrou uma boa história e, que quando isso acontece com o que você escreve, você sabe que está no caminho certo.
Obrigada por ter lido até aqui, e se algum personagem do seu livro favorito aparecer na sua sala esta semana, você já sabe o que fazer. Escreva o final.
Entre versos e universos,
Julia Abreu
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Escrita intuitiva porque às vezes os personagens sabem mais do que a gente sobre onde a história precisa ir.
A fascinante jornada da escrita para lembrar de onde tudo isso veio.
O Barulho do Recomeço outro texto de tom mais leve para quando você quiser só sentar e ler algo bonito.



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