Cósmico leitor,
Existe algo silencioso que acontece quando um ano termina e não é exatamente esperança. É, na verdade, espaço.
Aquele espaço para olhar para trás sem culpa demais, e para olhar para frente sem promessas grandiosas. E é nesse intervalo que a escrita costuma chamar.
2026 não precisa ser o ano em que você finalmente se torna escritor, mas pode ser o ano em que você simplesmente começa a escrever sem se abandonar.
Não faça isso como uma promessa de virada de ano, só como presença e prática.

Imagem ilustrativa gerada com IA para fins visuais.
Tire o peso do começo
Uma das coisas que mais atrasa quem quer escrever é a ideia de que o começo precisa ser especial e bom de primeira. Que logo a primeira tentativa precisa, de alguma forma, justificar o desejo de escrever.
E isso não é verdade.
Ninguém começa pronto, já com uma voz definida ou segurança. Essas coisas não vêm antes da escrita – elas nascem dela. Quanto mais você escreve, mais entende como pensa e sente, conseguindo então organizar o mundo em palavras.
Quando colocamos peso demais no começo, transformamos a escrita em performance. E escrever não é performar, é praticar.
Muita gente trava porque acredita que está “fazendo errado”, quando, na verdade, está apenas no estágio inicial. O começo é confuso mesmo. É repetitivo. Às vezes parece vazio, ou até exagerado. E tudo isso faz parte do processo.
Escrever é muito parecido com aprender um idioma novo, porque no início, você repete estruturas simples, usa palavras limitadas, erra tempos verbais e tantas outras coisas que ao aprender parecem fúteis. Mas é só com o uso contínuo que a fluência aparece. Com a escrita, acontece exatamente o mesmo.
Por isso, tirar o peso do começo significa aceitar três coisas importantes:
1- Seu primeiro texto não representa quem você é como escritor.
2- Escrever mal no início não é fracasso, é treinamento.
3- Clareza e estilo surgem com constância, não com talento isolado.
Quando você entende isso, algo muda. O medo acaba diminuindo, fazendo a expectativa se ajustar. E assim a escrita deixa de ser um teste de valor pessoal para se tornar um espaço de aprendizado.
Começar não exige coragem extraordinária, mas permissão. A permissão para tentar, errar, ajustar e continuar. E quanto mais leve for esse começo, maiores são as chances de ele não ser abandonado no meio do caminho.
Comece pequeno
Depois de tirar o peso do começo, o passo seguinte é tornar a escrita possível dentro da vida real, e não da vida ideal que a gente imagina.
Muita gente desiste de escrever não porque não gosta, mas porque estabelece metas grandes demais para a rotina que tem. “Vou escrever uma hora por dia”, “vou terminar um conto por semana”, “vou começar um livro” e daí você já imagina, tudo isso parece bonito, mas raramente se sustenta no longo prazo.
A escrita se mantém com frequência, não com intensidade.
Por isso, micro-metas funcionam tão bem. Elas reduzem a resistência inicial do cérebro e transformam a escrita em algo acessível, quase cotidiano. Quando você diz “só 10 minutos”, seu corpo não entra em modo de fuga. Quando diz “apenas um parágrafo”, o começo deixa de assustar.
Alguns exemplos de micro-metas realistas:
- escrever 10 minutos por dia, sem se preocupar com resultado;
- escrever entre 150 e 300 palavras, mesmo que pareçam simples demais;
- escrever um único parágrafo e parar ali, se quiser.
O ponto não é a quantidade de texto, é o hábito sendo construído.
Existe uma ideia equivocada de que escrever pouco não conta. Conta, sim. Cada sessão curta mantém o contato com a linguagem, com o pensamento narrativo. É isso que cria continuidade, e continuidade cria evolução.
Outro benefício das micro-metas é que, muitas vezes, elas se expandem sozinhas. Você senta para escrever dez minutos e, quando percebe, já está há vinte. Mas mesmo que não esteja, a meta já foi cumprida sem frustração ou culpa.
Escrever todos os dias um pouco é muito mais transformador do que escrever muito de vez em quando.
Se você consegue escrever pouco hoje, consegue escrever de novo amanhã, e é assim que textos grandes começam, com decisões pequenas e sustentáveis.
Encontre sua porta de entrada
Uma das maiores armadilhas para quem quer escrever é achar que precisa começar já pelo “texto definitivo”, e isso costuma travar ao invés de motivar.
A escrita precisa de porta de entrada, não de obra-prima.
Porta de entrada é o formato que te faz entrar no texto com menos resistência. É aquele tipo de escrita que você consegue acessar mesmo em dias comuns e cansativos, porque ela não precisa ser grandiosa, só comum.
Algumas portas de entrada comuns:
- diário → escrever o que aconteceu, o que sentiu. Tudo que ficou ecoando durante o dia;
- crônicas curtas → pequenas cenas do cotidiano, observações;
- blog ou textos livres → sem compromisso com gênero ou “qualidade literária”;
- ficção curta → histórias que cabem em uma página;
- poemas breves → imagens, frases, sensações etc.
Não existe formato melhor, então só escolha o formato que te chama para dentro da escrita.
Um ponto importante: começar pelo que você já viveu costuma facilitar muito. Como memórias, situações reais, lugares conhecidos, conversas que ficaram na cabeça, enfim, qualquer coisa. A linguagem flui quando se escreve a base do vivido, porque o material já está dentro de você.
Depois, com o tempo, essa escrita se expande fazendo, por exemplo, o real virar ficção.
Outro erro comum é achar que escolher uma porta de entrada te aprisiona. Não aprisiona. Muito pelo contrário. Ela te dá movimento. Você pode escrever diário hoje, ficção amanhã, poema na semana seguinte. O importante é manter o contato com a escrita vivo.
A pergunta central aqui não é “o que eu deveria escrever?”, mas:
“Por onde a escrita entra em mim com mais facilidade?”
Quando você encontra essa resposta, escrever deixa de ser uma obrigação distante e passa a ser um gesto possível e quase natural.
Crie um ritual simples de escrita
Escrever não precisa de um cenário perfeito, aquele silêncio absoluto ou várias horas livres. Na prática, a escrita se sustenta muito mais por ritual do que por inspiração. Um ritual simples avisa ao corpo e à mente que “agora é hora de escrever”.
Ritual não é rigidez. É só repetição
Pode ser um horário fixo, tipo sempre pela manhã ou antes de dormir, qualquer horário que seja bom para você. Mas também pode ser um “gatilho”, algo pequeno que antecede o ato de escrever e prepara o terreno.
Alguns exemplos de gatilhos simples:
- fazer um café ou chá específico;
- colocar sempre a mesma música ou playlist;
- abrir o mesmo caderno, aplicativo ou arquivo;
- sentar no mesmo lugar, mesmo que por poucos minutos.
O cérebro aprende por associação. Quando você repete esse gesto, ele entende que não precisa esperar a “ideia perfeita” e que basta começar.
Outro ponto importante é que ritual não é quantidade, mas é o que? Isso ai, constância. Dez minutos por dia já é o suficiente. O erro comum é transformar o ritual em cobrança. Quando isso acontece, ele deixa de convidar e passa a afastar.
O ritual serve para diminuir a resistência inicial. Ele tira a escrita do campo do “quando eu tiver tempo” e traz para o “isso faz parte do meu dia”. Mesmo que o texto não saia bom ou que pareça pequeno demais.
Com o tempo, esse espaço se expande sozinho.
Também vale lembrar que rituais mudam. O que funciona em uma fase pode não funcionar em outra. E tudo bem ajustar. Escrita é escuta contínua do texto, mas também de você.
Mais do que criar disciplina, um ritual cria pertencimento. Ele diz, silenciosamente, que “a escrita tem um lugar na minha vida”. E quando a escrita tem um lugar, ela começa a voltar por conta própria.

Imagem ilustrativa gerada com IA para fins visuais.
Existe um momento em que a escrita deixa de ser ideia e passa a ser gesto. Esse momento raramente é grandioso. Ele costuma ser simples, quase invisível… Não porque sabe exatamente o que está fazendo, mas porque decidiu começar.
A escrita não nasce de grandes viradas, mas de pequenos começos repetidos. Cada parágrafo escrito sem certeza constrói confiança. Cada texto imperfeito ensina algo. Cada retorno à página, mesmo breve, cria pertencimento.
Quando você tira o peso do começo, escrever deixa de ser promessa e vira prática. E práticas constroem caminhos. Não é sobre escrever muito, nem escrever bem, é sobre escrever com continuidade.
O ano que começa não precisa ser o ano do “texto perfeito”. Pode ser o ano do hábito. Do contato diário. Do aprendizado silencioso. Do erro que ensina. Da constelação de pequenas tentativas que, juntas, formam algo maior.
A Deusa da Terra sussurra:
“Toda escrita nasce quando você toca o chão.”
O Deus do Universo completa:
“Mas só cresce quando você se permite dar o primeiro passo no escuro.”
Então comece hoje.
Três linhas ou dez minutos.
Comece com o que for possível.
É assim que toda escrita começa e só assim que ela permanece.


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