Cósmico leitor,
O texto de hoje nasceu da vontade de escrever uma história puramente ficcional, onde o estranho é tratado com a maior naturalidade possível. Um lugar que resolve problemas que ninguém admitiu ter e uma narradora que só entrou ali por curiosidade (o que quase sempre é uma péssima ideia).
Este conto não quer explicar o mundo, nem consertá-lo. Ele só abre uma porta, deixa você espiar o que tem do outro lado, e fecha antes que vire explicação demais.
O Departamento de achados, perdidos e esquecidos
Ninguém estranhou quando o Departamento de Achados, Perdidos e Esquecidos abriu na esquina da rua.
O que causou certa confusão foi o letreiro:
“Recebemos coisas que você nem sabia que tinha perdido.”
Entrei por curiosidade. E não, eu não tinha esquecido nada, mas eu estava com tempo e pouca responsabilidade naquele dia.
Atrás do balcão, uma moça com cara de tédio organizava gavetas etiquetadas com nomes estranhos como “Vontade de Aprender Violão” e “Paciência – versão 2014”.
— Posso ajudar? — ela perguntou, sem me olhar.
— Eu… acho que não perdi nada.
Ela suspirou, como quem ouve isso o dia inteiro.
— Todo mundo diz isso.
Antes que eu pudesse responder, um senhor entrou correndo.
— Vocês acharam meu entusiasmo?
— Nome completo? — perguntou a moça.
— Entusiasmo de começar projetos novos.
Ela puxou uma gaveta enorme.
— Temos três. Quer todos ou só o mais recente?
O homem pensou.
— Melhor só um. Muito entusiasmo dá trabalho.
Enquanto isso, um casal discutia perto da prateleira dos Sentimentos Temporariamente Esquecidos. Ela queria resgatar a empolgação do primeiro encontro, já ele procurava a paciência que jurava ter deixado ali na semana passada.
No fundo da sala, uma criança brincava com algo etiquetado como “Imaginação Sem Vergonha”. A mãe tentou tirar da mão dela, mas desistiu quando a menina começou a narrar uma aventura épica envolvendo um sofá e um dragão invisível.
— Você tem cadastro? — a moça do balcão me perguntou de novo.
— Não…
— Então vou procurar pelo seu olhar — disse, finalmente me encarando.
Digitou algo no computador. A tela piscou.
— Achei.
Ela colocou sobre o balcão um objeto pequeno e meio amassado.
Era minha capacidade de ficar empolgada com coisas simples.
— Estava no fundo da gaveta dos “Depois eu vejo isso.”
Fiquei olhando, sem saber o que dizer.
— Leva — ela falou. — Mas aviso logo que não aceitamos devolução.
Peguei o objeto, agradeci e fui saindo.
Antes de fechar a porta, ouvi alguém perguntar:
— Vocês também trabalham com arrependimentos?
A moça respondeu, automática:
— Só às quartas. Sexta-feira a fila fica muito grande.
A placa na porta balançou quando saí.
Do lado de fora, olhei para a esquina vazia.
O prédio não estava mais lá.
Mas, curiosamente, eu estava.

Imagem ilustrativa gerada com IA para fins visuais.
E você, cósmico leitor?
Se existisse um Departamento de achados, perdidos e esquecidos… o que acha que estaria esperando por você em alguma gaveta?
Entre versos e universos,
Julia Abreu


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