Filme: Letra e Música
Direção: Marc Lawrence
Duração: 104 minutos
Poderia dizer que alguns filmes chegam quando a gente já não está tentando provar nada.
Eles aparecem num momento em que o barulho do mundo cansa mais do que motiva e oferecem outra coisa, como por exemplo, a escuta.
Letra e Música é um desses encontros. Não se impõe e não tenta ser maior do que é. Ele começa quase tímido, como uma melodia que ainda procura o tom certo. E talvez funcione tão bem, porque fala de criação quando o tempo parece já ter passado e o entusiasmo foi substituído pela sobrevivência cotidiana.
É um filme que entende o cansaço criativo, e não o julga.

Sinópse
A história acompanha Alex Fletcher, um músico que viveu o auge nos anos 80 e agora sobrevive de apresentações nostálgicas, repetindo um sucesso que ficou no passado. Quando surge a chance de escrever uma nova música para uma estrela pop do momento, ele percebe que ainda sabe compor melodias, mas já não consegue escrever letras.
É nesse ponto que Sophie entra. Ela não se apresenta como escritora. Organiza plantas, observa o mundo… Seu talento aparece quase por acaso, em conversas atravessadas, em frases ditas sem intenção de serem música.
O filme se constrói a partir desse encontro improvável. Não como romance imediato, mas como parceria criativa. A urgência do prazo existe, mas não engole o processo. A música vai sendo criada aos poucos, em tentativas, erros, repetições. O enredo avança como a própria composição do primeiro o ritmo, depois a palavra certa, depois o silêncio necessário.
Nada ali parece grandioso, e ainda assim posso dizer que tudo importa.
Análise do Filme
O que sustenta Letra e Música não é a trama, mas o espaço entre as coisas, principalmente que já foi ouvido e nunca se permitiu falar.
O filme trata a criação como um gesto compartilhado. Não tem genialidade isolada, nem inspiração divina, mas tem escuta e desconforto. Os personagens são falhos, irônicos, defensivos e profundamente humanos. A música vem justamente desses desencontros. Isso é o que mais me inspira a assistir o filme.
O ritmo do filme respeita as pausas. Ele não acelera para entregar emoção, mas permite que cenas simples existam, fazendo com que os diálogos banais carreguem sentido. Até o silêncio faz parte da composição, o que eu acredito ser incrível de várias maneiras. A repetição só aprofunda mais e mais, e não cansa de jeito nenhum. Cada tentativa aproxima um pouco mais daquilo que ainda não sabe o que é.
Existe uma delicadeza técnica em não transformar a música em clímax constante. Ela aparece como fio condutor, não como espetáculo. O que fica não é a canção perfeita, mas sim o processo de afinamento interno que ela provoca.
Reflexões sobre o Ato de Criar
Há algo muito claro, embora nunca dito, sobre escrever nesse filme.
A escrita aqui não nasce do excesso de sentimento, mas da atenção. Do ouvir o outro, aceitando que uma palavra errada pode ser o caminho até a palavra certa. Mostrando que escrever não é ter certeza, mas insistir mesmo assim.
Letra e Música convoca uma escrita menos solitária. Uma escrita que acontece no diálogo e no erro compartilhado. Ele lembra muito que criar não exige estar no auge, mas exige estar presente. É nítido ali que nem toda obra nasce de um grande impulso; algumas nascem de um prazo apertado, ou um piano desafinado, né? Haha
Escrever, aqui, é afinar.
Pontos Altos:
- A delicadeza com que o filme aborda o processo criativo, sem glamourizar a genialidade
- A construção da parceria entre os protagonistas, mais baseada em escuta do que em romance
- O ritmo que respeita pausas e repetições
- A forma simples, e eficaz, de mostrar que criar é um gesto contínuo, não um momento mágico
Pontos de Atenção:
- Tem narrativa previsível em alguns momentos
- Conflitos resolvidos de maneira suave demais para quem prefere tensões mais intensas
- Tom leve que pode parecer simples para quem espera algo mais denso ou ousado
No fim, Letra e Música não fala sobre sucesso, nem sobre amor ideal. Mas mostra que precisamos continuar criando principalmente quando ninguém está olhando. Mostra que temos que aceitar que o tempo muda, e ainda assim, precisamos seguir tentando dizer algo verdadeiro.
Nota final:
(4 de 5 estrelas)
Para quem acredita que criar também é um gesto de recomeço silencioso.


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