Cósmico leitor, temos alguns sentimentos que não encontram espaço na fala. Não porque sejam pequenos, mas porque chegam confusos demais, difíceis de organizar numa conversa rápida ou numa resposta de “tudo bem, e você?”.
Eu já vivi muitos dias assim. Dias em que por fora estava tudo em ordem, e por dentro havia um barulho que eu não sabia nomear. E foi tentando entender esse tipo de dia que escrevi a história de hoje.
Mais do que falar sobre escrever, ela mostra o que acontece quando alguém finalmente encontra um lugar pra colocar pra fora aquilo que não cabia mais por dentro.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Finalmente
Ninguém teria percebido que havia algo errado com ela naquele dia. Ela saiu de casa no horário de sempre, respondendo mensagens com a mesma rapidez de sempre e rindo das mesmas coisas que todos riam. Por fora, tudo parecia encaixado, quase automático, como se a vida seguisse um roteiro que ela já conhecia de cor.
Mas por dentro, havia um incômodo que não encontrava nome.
Não era exatamente tristeza, nem ansiedade ou sequer cansaço. Era uma mistura silenciosa de tudo isso, acumulada em camadas tão sutis que ela já não sabia onde começava e onde terminava. Era como carregar algo nas mãos o dia inteiro sem perceber o peso, até o momento em que não dava mais para segurar.
Durante o dia, ela tentou ignorar. Distrações como o próprio trabalho ajudavam a ocupar a mente. Ainda assim, em cada pausa, em cada segundo de silêncio, aquilo voltava, como se estivesse esperando a oportunidade de existir.
Quando chegou em casa, não havia mais distração suficiente.
Ela largou a bolsa e tirou os sapatos, ficando parada no meio do quarto, sem saber exatamente o que fazer com o próprio corpo. Havia uma sensação incômoda de que precisava dizer algo, mas não havia ninguém para ouvir, e, mesmo que houvesse, ela não saberia por onde começar.
Foi então que, quase por impulso, ela pegou um caderno. Não porque queria escrever bonito. Apenas porque precisava fazer alguma coisa com aquilo que não cabia mais nela.
Sentou na cama, abriu uma página em branco e ficou olhando por alguns segundos, como se esperasse que as palavras viessem prontas. Não vieram.
A primeira frase saiu estranha, mal construída, quase sem sentido. Ela pensou em parar. Pensou que talvez estivesse exagerando, que aquilo nem era tão importante assim.
Mas, por algum motivo que ela não soube explicar, continuou.
Escreveu outra frase. Depois mais uma. E mais outra.
E, aos poucos, o que antes era um amontoado confuso de sensações começou a se organizar em palavras. Palavras honestas. Nada bonitas. Pela primeira vez naquele dia, aquilo que ela sentia deixou de ser um peso indefinido e passou a ser algo que ela conseguia ver.
Ela percebeu que, enquanto escrevia, algo dentro dela mudava de lugar. Não era alívio imediato, muito menos uma solução. Mas era diferente. Era como se aquele sentimento, que antes ocupava tudo, agora estivesse ali, diante dela, delimitado em linhas, sendo pedaços que ela conseguia tocar sem se perder.
Escrever não resolveu o que ela sentia, mas fez com que aquilo deixasse de sufocar.
Quando terminou, fechou o caderno devagar, como quem guarda algo importante. O quarto continuava o mesmo, a vida lá fora também, mas dentro dela havia um espaço que antes não existia.
Naquela noite, ela entendeu algo simples, mas profundamente necessário que nem tudo precisa ser dito em voz alta para existir, pois algumas coisas só precisam de um lugar seguro para se tornarem palavra.
Ela entendeu ali que nem tudo precisa ser dito em voz alta pra existir. É algo simples mas profundamente necessário.
E você, cósmico leitor? O que dentro de você ainda está esperando esse lugar?
Se for um caderno, uma mensagem que você nunca mandou, ou até este espaço aqui, que hoje ele encontre a página em branco que está precisando.
Entre versos e universos,
Julia Abreu


Deixe um comentário