Cósmico leitor,
Algumas pessoas encontram o amor em lugares improváveis. Em lugares como cafeterias iluminadas, estações de trem, e também… durante um apagão, dividindo velas aromáticas enquanto a chuva transforma a cidade em cenário de filme antigo.
Em homenagem ao Dia do Abraço e ao Dia Mundial do Gótico, esta história fala sobre gente que aprende a amar no escuro, não de forma triste, mas íntima. É simplesmente para mostrar que algumas pessoas não precisam de grandes luzes para encontrar o caminho umas até as outras.
Existem pessoas que aprendem a amar no escuro.
Luna sempre achou isso exagero de filme triste até conhecer Dante no pior apagão da cidade em quinze anos.
Tudo começou porque ela resolveu sair justamente na noite em que o céu parecia ensaiar o fim do mundo. Chovia daquele jeito dramático que faz qualquer pessoa minimamente sensata ficar em casa. Mas Luna precisava comprar velas. E que fique claro que não era por espiritualidade, nem por um romantismo sombrio. Era só porque o apartamento dela tinha uma tendência humilhante a perder energia elétrica.
A pequena loja da esquina estava quase vazia, iluminada apenas por lanternas improvisadas e pelo brilho melancólico de um letreiro vermelho piscando sem muita vontade de continuar existindo.
Foi ali que ela viu Dante.
Todo de preto, naturalmente.
Casaco preto. Luvas pretas. Cabelo preto. Olhos pretos. O tipo de homem que parecia ter sido criado exclusivamente para andar em cemitérios chuvosos ouvindo música triste em fones de ouvido caros.
Ele segurava um pacote de velas aromáticas chamado Noite de Outono com uma seriedade que beirava o filosófico.
Luna pegou o último pacote da prateleira ao mesmo tempo que ele.
Os dois pararam.
— Ah, claro — ele suspirou. — O universo continua cruelmente poético.
Ela quase riu.
— Você fala assim normalmente?
— Infelizmente, sim.
Acabaram dividindo o pacote de velas porque, segundo Dante, “a tragédia é mais suportável quando compartilhada”.
Do lado de fora, a chuva piorou.
E, por algum motivo que nenhum dos dois soube explicar depois, eles decidiram esperar o temporal passar sentados na calçada da loja fechada.
Conversaram sobre coisas estranhas como livros empoeirados, sobre como filmes de terror antigos têm mais romance do que muitas comédias românticas e do fato de que abraços parecem mais sinceros quando o mundo está acabando um pouco.
Luna descobriu que Dante trabalhava numa floricultura, embora tivesse cara de quem amaldiçoava aldeias medievais nas horas vagas. Enquanto Dante descobriu que Luna ria em momentos inadequados e isso, inexplicavelmente, o encantou.
Quando a energia da rua voltou, os postes acenderam de uma vez, revelando os dois ainda sentados ali, cercados de poças d’água e embalagens de vela.
Dante fez uma expressão quase decepcionada.
— Acho que o clima gótico acabou.
Luna olhou ao redor e percebeu que a chuva estava diminuindo. Aquele cheiro de terra molhada era notável, enquanto a cidade lentamente estava acordando da escuridão.
Então respondeu:
— Talvez não. Talvez ele só tenha ficado mais confortável.
Ele sorriu daquele jeito raro que parece acontecer primeiro nos olhos.
E, antes de ir embora, abriu os braços num gesto dramático demais para ser natural.
— Aproveitando o Dia do Abraço…?
Ela riu.
E abraçou aquele homem estranho como quem aceita, por alguns segundos, fazer parte de uma história levemente sombria e absurdamente aconchegante.
Porque existem pessoas que aprendem a amar no escuro.
E outras que descobrem, tarde demais, que nunca quiseram acender a luz.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
E você, cósmico leitor?
Acha que algumas pessoas entram na nossa vida como luz ou como abrigo para a escuridão?


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