Cósmico leitor, recentemente tive a oportunidade de viajar para Minas Gerais, passando por cidades como Ouro Preto, São Lourenço e seus arredores. A viagem tinha como objetivo conhecer novos lugares aproveitando alguns dias longe da rotina, no caso, descansar. No entanto, voltei com uma reflexão sobre criatividade e escrita que não estavam nos meus planos.
Muitas vezes acreditamos que escrever melhor depende apenas de ler mais, estudar técnicas ou passar mais tempo diante da página em branco. Tudo isso é importante, sem dúvida, mas existe “a experiência”, um elemento que costuma ser esquecido. A nossa escrita também é alimentada pelas coisas que vemos, ouvimos, sentimos e observamos ao longo da vida.
Durante a viagem, percebi algo bem curioso. Em São Paulo, a rotina costuma ser tão acelerada que grande parte do ambiente passa despercebida. Em Minas, tive a sensação oposta. O ritmo parecia mais lento. Tinha espaço para caminhar sem pressa, sentar em silêncio simplesmente observando. Foi nesse estado de atenção que muitas ideias começaram a surgir para mim.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
A arte de desacelerar e observar
Um dos lugares que mais me marcou foi o Parque das Águas, em São Lourenço. Curiosamente, não foi aquele tipo de atração que impressiona pela grandiosidade ou pelos efeitos visuais. O que mais me chamou a atenção foi a sensação de estar diante de um espaço carregado de história, preservado ao longo do tempo e integrado à natureza de forma simples.
Enquanto caminhava por lá, observava as construções antigas, as fontes, as árvores e as pessoas que passavam pelo local. Tudo parecia convidar a um ritmo diferente. Eu não sentia pressa ou a necessidade de estar sempre indo para o próximo compromisso. Eu só sentia o momento presente.
A escrita depende muito dessa capacidade de observação. Antes de criar personagens ou histórias, precisamos aprender a enxergar. E enxergar não significa só olhar. Significa prestar atenção aos detalhes, percebendo comportamentos, notando aquilo que normalmente passaria despercebido em meio à correria do dia a dia.
Eu posso afirmar que por isso eu senti tanta vontade de escrever durante a viagem. Quando mudamos de ambiente, nossa mente sai do piloto automático. Os lugares deixam de ser familiares e voltamos a observar o mundo com curiosidade. De repente, só uma praça ou uma construção antiga passam a despertar perguntas trazendo muitas ideias e reflexões que dificilmente surgiriam dentro da rotina.
As histórias escondidas no cotidiano
Uma das imagens que trouxe comigo de lá, acredite se quiser, não foi uma igreja histórica nem uma paisagem famosa. Foi um senhor sentado em um banco de praça.
Quase todos os dias, quando saíamos para caminhar por volta das cinco da tarde, eu o via no mesmo lugar. Ele não parecia estar esperando alguém nem fazendo algo em particular. Apenas permanecia ali, observando o movimento da cidade. Tinha algo de tranquilo naquela rotina silenciosa.
Não sei sua história. Não sei seu nome, sua profissão, muito menos os motivos que o levavam àquele banco todos os dias. Mas, como acontece com frequência na escrita, a imaginação começou a preencher as lacunas. Talvez aquele fosse seu momento de descanso ou um hábito construído ao longo dos anos. Talvez aquela praça representasse algo importante para ele. Não sei. O fato é que seus olhos cansados pareciam encontrar algum tipo de paz naquele lugar.
É curioso como cenas simples podem despertar tantas perguntas. Para quem escreve, a inspiração nem sempre surge de acontecimentos extraordinários. Muitas vezes, vai nascer de pequenas observações do cotidiano, como por exemplo um hábito aparentemente comum pode se transformar no ponto de partida para um personagem ou até uma história.
Viajar nos oferece além de novos lugares, pois também nos apresenta novas pessoas e novas formas de enxergar a vida. E cada uma dessas experiências amplia o repertório de quem escreve.
A inspiração que encontramos nos outros
Outra parte especial da viagem foram as pessoas que conheci pelo caminho. Minha mãe e eu viajamos acompanhadas de duas senhoras que, apesar da idade, demonstravam uma energia contagiante. Estavam sempre conversando, rindo, dançando e aproveitando cada passeio com um entusiasmo genuíno, mais do que nós duas, inclusive.
Pode parecer um detalhe simples, mas conviver com elas me fez refletir muito sobre como associamos a criatividade sempre com a juventude, como se a capacidade de se encantar com o mundo diminuísse com o tempo. No entanto, aquelas duas mulheres pareciam provar o contrário. Eram cheias de histórias e abertas a novas experiências.
A escrita também depende dessa disposição para continuar se surpreendendo. Quando deixamos de nos interessar pelas pequenas novidades da vida, nosso repertório começa a encolher. Em contrapartida, quando permanecemos curiosos, sempre existe algo novo para aprender e observar, conseguindo transformar em narrativa.
Por isso que eu insisto que viajar é tão valioso para quem escreve. Não apenas pelas paisagens ou pelos pontos turísticos, mas pelas experiências humanas que surgem no caminho. Todas as experiências que temos amplia um pouco mais nossa visão de mundo. E quanto maior nossa visão de mundo, mais horizontes temos para criar dentro das nossas próprias histórias.
Nem sempre é preciso viajar para ir mais longe
É claro que nem sempre podemos viajar. Não estou sendo hipócrita. Eu sei que conhecer novas cidades exige tempo, planejamento e, muitas vezes, um investimento que nem todos conseguem fazer com frequência. Mas a lição que trouxe de Minas vai além da viagem em si.
O que realmente alimenta a criatividade não é a distância percorrida, mas a disposição para sair da rotina. Um bairro que você nunca visitou, uma caminhada sem destino, uma tarde em um parque, uma conversa com alguém diferente ou até mesmo alguns minutos de observação silenciosa podem oferecer novas perspectivas. O mundo está repleto de histórias esperando para serem percebidas.
O maior risco para quem escreve que eu quis trazer aqui, não é a falta de talento ou de técnica, mas o excesso de familiaridade. Quando vemos as mesmas ruas, repetimos os mesmos caminhos, e por consequência, vivemos sempre as mesmas experiências. Nisso, a nossa percepção tende a se acomodar. Aos poucos, deixamos de reparar nos detalhes que tornam a vida interessante.
Voltei de Minas Gerais com algumas páginas preenchidas no caderno e uma certeza renovada de que todo escritor precisa continuar explorando. Não apenas novos lugares, mas também novas ideias, novas pessoas, novos espaços e novas formas de olhar para o mundo, pois para criar novos horizontes na página, primeiro precisamos encontrar novos horizontes dentro de nós.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Obrigada pela leitura, cósmico leitor. Que você nunca perca a curiosidade de caminhar um pouco além do caminho de sempre.


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