Cósmico leitor, durante uma viagem por Minas Gerais, passei alguns dias observando um senhor que sempre estava sentado no mesmo banco da praça perto do hotel que eu estava, no mesmo horário.
Nunca conversei com ele. Nunca soube seu nome. Na verdade, não faço ideia de quem ele era ou do que fazia ali todos os dias.
Mas escritores têm esse hábito estranho de preencher vazios. Quando não encontramos respostas, a imaginação começa a procurá-las.
O conto a seguir não é uma história real. É apenas uma das muitas histórias que poderiam existir por trás daquele homem que eu observava todas as tardes.
O homem do banco da praça
Todos os dias, às cinco da tarde, ele estava lá. Naquele banco que ficava de frente para a praça principal da cidade, sob a sombra de uma árvore antiga que parecia tão velha quanto as histórias daquele lugar. Não importava se fazia calor ou se o céu ameaçava chuva. Quando o relógio da igreja marcava cinco horas, ele surgia.
Sentava-se devagar. Sempre no mesmo lado do banco, olhando para a mesma direção.
Ninguém parecia estranhar sua presença. Na verdade, era como uma das construções históricas da cidade. Simplesmente fazia parte da paisagem.
Durante alguns dias, eu o observei. Segurava um chapéu gasto entre as mãos e permanecia imóvel, apenas acompanhando o movimento das pessoas.
Nunca o vi conversando, muito menos usando um celular. Era algo incomum para alguém que vem de um lugar onde as pessoas não conseguem ficar um minuto sem olhar para uma tela.
No último dia da viagem, a curiosidade venceu. Atravessei a praça e me sentei no outro extremo do banco.
Por alguns minutos, nenhum de nós disse uma palavra.
Então perguntei:
— O senhor vem aqui todos os dias?
Ele sorriu sem me olhar.
— Há muitos anos.
— E o que faz aqui exatamente?
O homem demorou a responder.
Seus olhos continuavam fixos em algum ponto distante da praça.
— Eu espero.
Olhei ao redor. Não havia nenhum sinal de que alguém estivesse prestes a aparecer.
— Espera quem? Se eu puder perguntar, claro.
Pela primeira vez, ele virou o rosto em minha direção.
O sorriso continuava ali. Pequeno, mas tranquilo.
— Os dias bons.
Fiquei em silêncio.
Ele voltou a olhar para a praça. Havia crianças correndo perto dos bancos. Pássaros disputavam migalhas espalhadas pelo chão. Uma senhora atravessava a rua carregando flores, enquanto o marido vinha logo atrás, desajeitado, carregando o filho nos braços e sorrindo como se tivesse acabado de realizar o maior ato de amor de sua vida.
O vento balançava lentamente as folhas da árvore acima de nós.
Foi então que tive um estalo.
Ele realmente não estava esperando ninguém. Só estava aprendendo a não deixar a vida passar depressa demais.
Quando me levantei para ir embora, o senhor continuou lá, sentado, observando cada detalhe tranquilamente, como fazia todos os dias. Como provavelmente faria no dia seguinte. E no outro.
Enquanto eu voltava para casa carregando fotografias e lembranças da viagem, ele permaneceu ali, esperando os dias bons.
E eu fui embora com a sensação de que talvez passasse tempo demais esperando a vida acontecer, quando ela já estava acontecendo.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
E você, cósmico leitor?
Está esperando os dias bons chegarem ou já consegue enxergá-los nos pequenos momentos que acontecem diante de você todos os dias?


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