Cósmico leitor,
Todo fim de ano carrega um peso silencioso. A expectativa de virar alguém diferente, de resolver tudo em uma noite e começar “direito” na segunda-feira invisível que chamamos de Ano Novo.

O texto de hoje nasceu justamente da vontade de olhar para essa virada com menos cobrança e mais curiosidade. E se o Ano Novo não chegasse como promessa, mas como presença? E se ele não trouxesse milagres ou versões melhores, só a chance de continuar em dias comuns?

Este conto não é sobre transformação imediata. É sobre continuidade. Sobre o que acontece quando a gente para de exigir espetáculo do tempo e passa a viver o que ele oferece, sem fogos internos, mas com espaço.

 

O Ano Novo não chegou sozinho

Às 23h58 do dia 31 de dezembro, eu ainda estava tentando decidir se fazia um pedido mentalmente ou se comia mais uma uva antes da virada. Foi quando ouvi a campainha.

Não era possível.
Quem toca campainha faltando dois minutos para o ano acabar?

Abri a porta com a taça na mão e encontrei o Ano Novo parado ali. Literalmente.

Não era uma pessoa jovem, como eu imaginava. Nem usava branco. O Ano Novo parecia cansado. Vestia um casaco amassado, carregava uma mala velha e tinha a expressão de quem já tinha sido recebido com expectativa demais em outras casas.

— Posso entrar? — perguntou. — Prometo não ficar muito tempo.

Fiquei sem reação. Não por ele ser o Ano Novo, mas porque parecia… comum demais.

Dei passagem. Ele entrou, sentou no sofá e suspirou fundo, como alguém que finalmente tirou o sapato depois de um dia longo.

— Olha — ele disse — já vou avisando que não trouxe milagres. Nem versões melhores de ninguém. Só cheguei mesmo.

Tentei rir, mas fiquei meio ofendida.
— Como assim “só chegou”? Todo mundo espera alguma coisa de você.

— Eu sei — respondeu, mexendo na mala. — Esse é o problema. Todo mundo espera que eu conserte o que não foi cuidado o ano inteiro.

Ele abriu a mala. Dentro, não havia fogos ou planners. Só dias comuns, um erro repetido, uma conversa adiada, manhãs tranquila, um recomeço pequeno demais para virar legenda.

— É isso que eu tenho — disse. — Funciona melhor quando usado aos poucos.

O relógio marcou meia-noite. Os fogos começaram.

Olhei para ele.

— E agora?

O Ano Novo se levantou, pegou a mala e sorriu de leve.
— Agora é com você. Eu só passo. Quem vive é você.

Abriu a porta antes que eu pudesse agradecer.
Quando fechei, percebi que ele tinha esquecido algo no sofá.

Era um bilhete simples, escrito à mão:

“Não tenta fazer de mim um espetáculo.
Me usa como continuidade.”

Peguei outra uva e não pedi nada.

Imagem ilustrativa gerada com IA para fins visuais.

Entre versos e universos,
Julia Abreu

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Fragmentos Literários

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