Cósmico leitor, sinto que final de agosto sempre traz esse gostinho de fechamento de ciclo, e nada melhor do que comemorar isso com a dinâmica das palavras que vocês mandaram lá na caixinha do Instagram. Foram 26 palavras sorteadas, e delas nasceu esse conto, uma comédia bem gostosa de ler, com um casal que talvez vocês já conheçam e um gato que definitivamente já conhecem. Deixei os links das histórias anteriores desses dois logo abaixo, caso você queira relembrar antes de continuar. Mas por hoje, vem comigo conhecer o dia de mudança mais dramático, no bom sentido, que Luna e Dante já tiveram.

O Barulho do Recomeço
Luna sempre soube que mudar de casa com Dante ia ser no mínimo uma experiência extraordinária. O que ela não previu foi o nível de drama que um homem consegue extrair de uma simples caixa de papelão.
— Isso aqui não é uma caixa — ele anunciou, segurando o objeto com as duas mãos como se estivesse carregando uma relíquia. — É um mausoléu de memórias.
— É uma caixa de sapatos, Dante.
— A morte é uma questão de perspectiva.
Tobias, o gato, observava a cena do alto da estante ainda não desmontada, com aquele olhar de quem já viu humanos fazerem coisa pior e não tinha mais paciência pra reagir. Desde aquela noite de Halloween em que resolvera falar com ela pela primeira e única vez na vida, ele guardava um silêncio quase profissional o resto do ano. Mas se pudesse comentar aquela mudança, Luna tinha certeza de que seria algo do tipo “vocês dois deviam ter contratado alguém pra fazer isso direito”.
Fazia quase um ano e meio desde a noite do apagão e do abraço estranho na calçada molhada. Agora eles estavam ali, cercados de caixas, decidindo morar juntos numa casa pequena perto dos trilhos do trem, porque o aluguel era bom e porque, segundo Dante, “existe algo poeticamente trágico em adormecer ao som de trens passando”. Luna suspeitava que ele só queria ter uma desculpa pra escrever textos sombrios sobre o assunto mais tarde.
O rádio velho de Luna tocava baixinho num canto, com fios soltos ao redor e um rolo de fita adesiva. Tocava uma dessas músicas antigas cujo refrão inteiro se resumia a repetir love, love, love, e Dante cantava junto, todo desafinado, fingindo saber a letra completa. Chovia lá fora, aquela chuva de fim de tarde que parecia sempre escolher propriamente o dia da mudança pra cair.
— Você trouxe controle demais pra essa mudança — Dante disse, olhando pra planilha dela com abas coloridas e um cronograma de horários. — Isso aqui parece operação militar.
— E o seu método é qual? Jogar tudo em caixas sem etiqueta e confiar no universo?
— Exatamente. Chama-se fé.
— Chama-se D-E-S-A-S-T-R-E.
— Um desastre estiloso.
Ela revirou os olhos, mas sorriu, porque sabia que discutir com Dante era de certa forma uma das coisas que mais sentia falta quando ele viajava a trabalho. Tinha saudades daquele tipo de bobagem cotidiana, do jeito irritante e encantador que ele tinha de transformar qualquer tarefa doméstica em cena de filme europeu.
Numa das caixas mais antigas, encontraram um caleidoscópio empoeirado, herança de uma tia distante de Luna, junto com um bilhete amassado que ela mesma tinha escrito anos atrás, cheio de planos que nunca saíram do papel. Um deles dizia “ano que vem, Barcelona”. Ficou ali, esquecido, junto com um recorte de passagem que nunca foi comprada.
— A gente devia ir — Dante falou, olhando o bilhete por cima do ombro dela. — Não ano que vem. Esse aqui, de verdade.
— Achei que você preferia cemitérios europeus a praias.
— Barcelona tem os dois. É basicamente perfeita, não?
Luna riu, daquele jeito que ainda encantava Dante mesmo depois de todo aquele tempo junto, e naquele momento sentiu uma gratidão enorme por aquela vida esquisita que tinha se formado sem aviso.
Quando a chuva parou, já era quase noite. Depois de carregarem a última caixa para a casa nova, Luna fechou a porta do antigo apartamento pela última vez. O céu limpou rápido, do jeito que só costuma acontecer no final de agosto, e uma lua cheia e exibida apareceu por cima do prédio vizinho, como se quisesse participar da mudança.
Na casa nova, ainda havia caixas por todos os lados. O quarto começava a tomar forma, a sala continuava praticamente vazia enquanto o rádio velho de Luna tinha encontrado seu lugar provisório sobre uma caixa.
O quadril dela já reclamava havia duas horas de tanto agachar pra empacotar livros, mas ela ainda tinha energia pra discutir a posição exata da cama nova. Dante insistia numa disposição que deixava o quarto de frente pro céu visível pela janela, “ver estrela antes de dormir, é praticamente ritual”, segundo ele. Luna concordou só porque sabia que, no fundo, também gostava daquilo.
Sentados no chão da sala vazia, cercados de caixas ainda fechadas, Dante abriu uma garrafa de vinho barato “em homenagem ao nosso recomeço” e brindou com Luna usando dois copos plásticos encontrados numa sacola qualquer.
— Ao sucesso dessa mudança — ele disse, sério demais pra um brinde tão bobo.
— Ao sucesso de você não me deixar louca antes do fim do mês.
— Isso eu já não posso garantir.
Tobias pulou no colo de Luna, se ajeitou e fechou os olhos, ronronando baixinho, como se aprovasse, à sua maneira muda e superior, aquele recomeço todo. Luna afagou o pelo dele e sentiu o coração quieto, satisfeito, do jeito que só fica depois de um dia cansativo bem vivido ao lado de gente (e bicho) que a gente escolhe todo dia de novo.
Tinha um afeto genuíno naquela bagunça toda, uma coisa autêntica demais pra caber em qualquer planilha. A luz do abajur improvisado no chão iluminava o cômodo de um jeito morno, de certa forma, aconchegante, e Dante, com a testa encostada na dela, sussurrou baixinho, quase sem querer que ela ouvisse.
— Te amo, minha lor.
Ela sorriu sem entender de primeira. “Lor” era o apelido que ele tinha inventado meses atrás, um corte estranho da palavra “flor”, cortando a primeira letra sem aviso nenhum. Quando ela perguntou por quê, ele respondeu com toda a seriedade do mundo que economizar sílabas era prova de amadurecimento emocional. Luna nunca soube se aquilo fazia o menor sentido, mas parou de questionar. Achava que combinava com ele, meio dramático, meio manso, e se sentia genuinamente feliz toda vez que ouvia aquilo.
Lá fora, o trem passou cortando os trilhos com aquele barulho que já não incomodava mais ninguém. Dentro, só existia paz. E um gato mudo, obviamente insatisfeito com a falta de móveis pra arranhar, mas paciente o suficiente pra esperar até o Halloween seguinte pra reclamar disso em voz alta.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos

E você, cósmico leitor? Qual objeto, se você abrisse uma caixa antiga da sua vida, ia te fazer sorrir sozinho de repente? E que tal aproveitar hoje pra escrever, nem que seja uma frase, sobre algo que você guarda com afeto e nunca contou pra ninguém?
Entre versos e universos,
Julia Abreu
Continue lendo:
O dia em que meu gato decidiu falar – Tobias resolve falar, pela primeira e única vez, numa noite de Halloween cheia de sarcasmo.
Existem pessoas que aprendem a amar no escuro – Luna e Dante se conhecem durante um apagão e acabam dividindo mais que um pacote de velas.


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