Tempo de leitura: 9 minutos

Cósmico leitor, hoje é 21 de janeiro, e isso significa duas coisas ao mesmo tempo: Dia do Abraço e Dia Mundial do Gótico. Sim, as duas datas caem juntas, e não, eu não consegui deixar essa combinação passar batido.

Então resolvi escrever uma historinha curta que junta as duas coisas de um jeito meio inusitado, sobre duas pessoas que se conhecem durante um apagão, dividindo o último pacote de velas de uma loja quase vazia. Tem clima de filme antigo, tem um personagem que fala como se estivesse sempre narrando sua própria tragédia pessoal, e tem um final que talvez te faça sorrir sem perceber.

Não é nada muito sério. É só uma pausa boa pra ler com um café do lado.

 

Existem pessoas que aprendem a amar no escuro

Luna nunca soube dizer bem quando decidiu que sair de casa, no meio daquele temporal, era uma boa ideia. Só sabe que a chuva caía daquele jeito dramático que faz qualquer pessoa minimamente sensata ficar em casa, e mesmo assim ela foi.

Precisava comprar velas. E que fique claro, não era por espiritualidade nem por um romantismo sombrio. Era só porque o apartamento dela tinha uma tendência humilhante a perder energia elétrica toda vez que chovia mais forte.

A pequena loja da esquina estava quase vazia, iluminada apenas por lanternas improvisadas sobre o balcão e pelo brilho melancólico de um letreiro vermelho que piscava sem muita vontade de continuar existindo. Foi ali que ela viu Dante.

Todo de preto, naturalmente. Um casaco preto, luvas pretas, cabelo preto, olhos pretos. O tipo de homem que parecia ter sido criado exclusivamente para andar em cemitérios chuvosos ouvindo música triste em fones de ouvido caros. Ele segurava um pacote de velas aromáticas chamado Noite de Outono com uma seriedade que beirava o filosófico, os dedos enluvados fechados sobre a embalagem como se protegessem algo mais importante do que cera perfumada.

Luna esticou a mão e pegou o último pacote da prateleira no exato instante em que ele fazia o mesmo. Os dois pararam, mãos quase se tocando sobre a caixa.

— Ah, claro — ele suspirou, sem tirar os olhos do pacote. — O universo continua cruelmente poético.

Ela quase riu.

— Você fala assim normalmente?

— Infelizmente, sim.

Acabaram dividindo o pacote de velas porque, segundo Dante, “a tragédia é mais suportável quando compartilhada”. Do lado de fora, a chuva piorou, batendo na vitrine da loja com um som que parecia querer entrar. E, por algum motivo que nenhum dos dois soube explicar depois, decidiram esperar o temporal passar sentados na calçada da loja já fechada, protegidos apenas pela marquise estreita.

Conversaram sobre coisas estranhas como livros empoeirados que ninguém mais lia, o fato de que filmes de terror antigos tinham mais romance do que muitas comédias românticas, e como abraços pareciam mais sinceros quando o mundo estava acabando um pouco. Luna descobriu que Dante trabalhava numa floricultura, embora tivesse cara de quem amaldiçoava aldeias medievais nas horas vagas. Dante, por sua vez, descobriu que Luna ria em momentos inadequados, e isso, inexplicavelmente, o encantou.

Quando a energia da rua voltou, os postes acenderam de uma vez, revelando os dois ainda sentados ali, cercados de poças d’água e embalagens de vela vazias. Dante fez uma expressão quase decepcionada.

— Acho que o clima gótico acabou.

Luna olhou ao redor e percebeu que a chuva estava diminuindo. O cheiro de terra molhada subia forte da calçada, enquanto a cidade lentamente acordava da escuridão, luz por luz.

— Talvez não — ela respondeu. — Talvez ele só tenha ficado mais confortável.

Ele sorriu daquele jeito raro que parece acontecer primeiro nos olhos. E, antes de ir embora, abriu os braços num gesto dramático demais para ser natural.

— Aproveitando o Dia do Abraço…?

Ela riu e abraçou aquele homem estranho como quem aceita por alguns segundos, fazer parte de uma história levemente sombria e absurdamente aconchegante.

Porque existem pessoas que aprendem a amar no escuro. E outras que descobrem, tarde demais, que nunca quiseram acender a luz.

amar

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos

Obrigada por ler até aqui, cósmico leitor. Espero que esse abraço no escuro tenha feito o seu dia um pouquinho mais leve.

Entre versos e universos,
Julia Abreu

Categorias:
Fragmentos Literários
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