Cósmico leitor, a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo acabou de encerrar com um recorde histórico. 760 mil visitantes passaram pelo evento em dez dias, cinco dias com ingressos esgotados, corredores lotados, filas nos estandes, crescimento de 57% na média de faturamento dos expositores em relação à edição de 2024. A presidente da Câmara Brasileira do Livro celebrou o resultado dizendo que os números mostram “o enorme interesse pela leitura quando criamos oportunidades para esse encontro.”
Eu entendo a celebração. Sério, entendo mesmo. Mas preciso ser honesta sobre o que esses números escondem, porque um evento cheio e um país que lê são coisas muito diferentes, e confundir os dois é perigoso, porque cria a sensação de que está tudo bem quando os dados dizem exatamente o contrário.

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O que os dados realmente dizem
Em novembro de 2024, o Instituto Pró-Livro divulgou a 6ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a mais completa e aprofundada pesquisa sobre hábitos de leitura do brasileiro, realizada com 5.504 entrevistas em 208 municípios (ou seja, não foi pouca coisa). O resultado foi um alerta que merecia ter gerado muito mais discussão do que gerou.
Pela primeira vez na série histórica da pesquisa, a proporção de não-leitores é maior do que a de leitores na população brasileira. 53% das pessoas não leram nem parte de um livro, impresso ou digital, de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos, nos três meses anteriores à pesquisa.
Pensa nisso por um segundo. Mais da metade dos brasileiros não abriu um livro em três meses. Nem um livro didático. Nem uma bíblia. Nada.
Em 2015, éramos 104,7 milhões de leitores. Em 2019, 101,1 milhões. Em 2024, 93,4 milhões. Isso representa uma redução de 6,7 milhões de leitores em apenas quatro anos. Nem ao menos estacionamos. Estamos regredindo.
Em 2024, o percentual de leitores no Brasil foi de 47%, uma queda em relação às edições anteriores da pesquisa. A principal barreira apontada entre os não leitores foi simplesmente não gostar de ler, citada por 33% deles. Pois é. Não é falta de tempo ou falta de dinheiro. É uma relação com a leitura que nunca foi construída.
Então quando vemos 760 mil pessoas numa Bienal e sentimos alívio pensando “o Brasil ainda lê”, precisamos lembrar que São Paulo tem 12 milhões de habitantes, que boa parte do público da Bienal vem de outras cidades, e que a casa é onde 86% dos leitores costumam ler. Quem vai à Bienal já é na grande maioria alguém que já tinha uma relação com os livros antes de chegar lá.
A Bienal como evento versus a Bienal como hábito
Vou falar uma coisa que é um pouco desconfortável de dizer, mas que acho importante.
Uma parcela do público que vai à Bienal vai pela experiência social. Pelo encontro com o autor favorito, pela foto, pela atmosfera do evento, pela sensação de pertencer a algo. E isso não é necessariamente ruim, porque qualquer porta de entrada para o mundo dos livros tem valor. O problema é quando a visita à Bienal substitui a leitura em vez de ser consequência dela. Quando a pessoa compra cinco livros num estande porque a capa é bonita ou porque o influenciador que ela segue recomendou, leva pra casa, coloca na estante e não lê.
“O leitor de evento” é o nome que isso tem nome no mercado editorial. Aquele que consome livro como objeto de desejo ou símbolo de identidade, mas cuja relação real com a leitura não acontece nas 52 semanas do ano, só nos dez dias de fevereiro ou setembro.
Não estou julgando quem faz isso. Estou dizendo que precisamos ir além. Que uma Bienal cheia não pode ser usada como evidência de que o problema da leitura no Brasil está resolvido ou sequer encaminhado.
Por que o livro é caro e por que isso importa
Aqui tem uma cadeia viciosa que pouca gente entende completamente.
O valor médio dos livros nas prateleiras brasileiras é de R$ 53,25. Pra um país onde o salário mínimo é de R$1.621,00, isso significa que um único livro representa quase 3,5% da renda mensal de quem recebe o mínimo. É um custo real e significativo.
Mas por que o livro custa tanto? Tudo começa na produção. A livraria ganha entre 30% e 35%, o autor ganha 10% em média, e o distribuidor, entre 15 e 20%. E quando a tiragem é pequena, como acontece com a maioria dos títulos no Brasil, o custo unitário de produção sobe muito. Só há lucro quando da reimpressão de algum livro. Quando um livro tem uma tiragem de menos de 1.000 ou 1.500 exemplares, só nos ressarcimos dos custos. Acima de 2.000 já conseguiremos obter lucro, pois o custo unitário começa a cair.
E aqui está o círculo fechado que ninguém quer enfrentar de frente. O livro é caro porque poucas pessoas compram. Simples assim. E poucas pessoas compram porque o livro é caro. Não há como resolver um lado sem resolver o outro.
Entre 2018 e 2020 houve um fechamento de centenas de livrarias no Brasil. A maioria dos municípios brasileiros não tem uma livraria. Sem ponto de venda, sem acesso físico, sem o encantamento de entrar numa livraria e se deparar com algo que você não sabia que queria. A experiência de descoberta que uma livraria proporciona é insubstituível, e estamos perdendo essa infraestrutura em ritmo acelerado.
O que a leitura tem a ver com tudo o mais
Esse não é só um problema cultural. É um problema que atravessa educação, cidadania, saúde, mercado de trabalho, democracia.
Um país que não lê tem mais dificuldade de desenvolver pensamento crítico em larga escala. Tem mais dificuldade de identificar desinformação. Tem mais dificuldade de processar textos complexos, de escrever com clareza, de se comunicar com precisão. A leitura não é um hobby refinado de uma elite cultural, não. A leitura entra como uma habilidade de base que impacta tudo.
E existe uma conexão direta entre leitura e escrita que não pode ser ignorada por quem está aqui neste blog. Não existe boa escrita sem leitura consistente. Não existe voz narrativa desenvolvida sem muitos livros lidos. Não existe repertório emocional rico na ficção sem o contato com as emoções que outros escritores já mapearam antes de você. Quando incentivamos a leitura, estamos incentivando a escrita também. As duas práticas se alimentam mutuamente, e a ausência de uma enfraquece a outra.
O que pode mudar e o papel de cada um de nós
Não vou fingir que existe uma solução simples, mas existem coisas concretas que movem a agulha, como políticas públicas de acesso ao livro importam muito, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático e iniciativas de distribuição de acervos para bibliotecas escolares têm efeito real na formação de leitores, especialmente nas camadas mais jovens da população. A pesquisa aponta que a faixa etária de 11 a 13 anos é a que apresenta o maior percentual de leitores. Leitores se formam cedo. E quando essa formação não acontece na infância e adolescência, recuperá-la na vida adulta é muito mais difícil.
Bibliotecas públicas precisam de investimento real, não de discurso vago. Na maioria das cidades brasileiras, quando existem, estão sucateadas, com acervos desatualizados e sem condições de ser um espaço atrativo de leitura.
E nós, que já somos leitores, temos um papel, que às vezes subestimamos, de influenciar as pessoas ao nosso redor. Não quero dizer de forma impositiva, mas pela presença. Um adulto que lê em casa muda a relação de uma criança com os livros mais do que qualquer campanha publicitária. Uma recomendação sincera de um amigo vale mais do que um display numa livraria. A influência pessoal é a mais poderosa forma de criar novos leitores que existe, e ela não custa nada.
Por que falo disso aqui
O Cósmica Palavra existe para incentivar a escrita. Mas a escrita precisa da leitura para existir de verdade. Não é possível dissociar as duas. Cada texto que escrevemos aqui, cada conversa sobre processo criativo, cada recurso narrativo que exploramos juntos, tudo isso pressupõe leitores que continuam lendo, que alimentam o repertório, mantendo viva a relação com as palavras fora dos dias em que abrem o caderno para escrever.
A Bienal cheia é um sinal bonito. Mas não podemos parar aí. O trabalho de criar uma cultura de leitura real no Brasil, constante, cotidiana, acessível, é longo e começa em cada casa, em cada escola, em cada conversa onde alguém diz com entusiasmo genuíno “lê esse livro, acho que você vai amar”.
Isso também é literatura, e isso também é escrita.

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Reflexão cósmica
A Deusa da Terra sabe que sementes precisam de solo para germinar. Que não adianta ter a semente mais potente do mundo num chão que nunca foi preparado. A leitura é assim, pois ela não acontece por decreto, em eventos de dez dias ou com contágio de recorde de visitantes. Ela acontece quando alguém, em algum momento formativo, descobriu que as palavras podiam fazer algo dentro dela.
O Deus do Universo lembra que cada constelação foi nomeada por alguém que olhou para o céu com atenção suficiente para ver padrões onde outros viam só pontos dispersos. Ler é aprender a ver padrões, para criar conexões e habitar outros mundos sem sair do lugar.
Um país que não lê é um país que está perdendo a capacidade de olhar para o céu e enxergar constelações.
E já que falei tanto de números e estatísticas, também quero deixar um pouco do que vivi por lá. Estive presente nesta edição da Bienal, e separei alguns vídeos de como foi caminhar por aqueles corredores lotados, sentir de perto esse recorde de público. Vou deixar aqui embaixo pra vocês conferirem também esse outro lado, o lado de quem estava lá dentro da estatística.
Obrigada por chegar até aqui.
Entre versos e universos,
Julia Abreu
Referências para se aprofundar
Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 – a pesquisa completa com todos os dados sobre hábitos de leitura no Brasil.
53% dos brasileiros não leem livros, PublishNews – a cobertura completa do lançamento da pesquisa Retratos da Leitura 2024.
28ª Bienal do Livro de SP bate recorde histórico, CNN Brasil – os dados oficiais da edição 2026 da Bienal.
Por que o livro é tão caro no Brasil, Nexo Jornal – análise completa da cadeia de preços do mercado editorial brasileiro.
Números do mercado editorial apontam para gargalos, PublishNews – sobre o fechamento de livrarias, queda de vendas e os desafios estruturais do setor.
Os Retratos da Leitura no Brasil 2024: análise completa, Clube de Autores – análise detalhada dos principais dados da pesquisa com contexto editorial.
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