Cósmico leitor, George Orwell escreveu A Revolução dos Bichos em 1945 usando porcos e cavalos para criticar o stalinismo num momento em que fazer isso abertamente podia custar a liberdade de alguém. Mas aqui está o detalhe que nem sempre aparece nessa história: Orwell também foi censurado por seus próprios aliados políticos. Editoras britânicas de esquerda se recusaram a publicar o livro porque criticava a União Soviética, que era aliada da Inglaterra na Segunda Guerra. O livro só saiu porque um editor pequeno teve coragem de publicar o que os outros recusaram.
Essa história me importa porque revela algo sobre o que a literatura realmente é. Apesar de muitas pessoas acharem que é um instrumento de um lado ou de outro, não é. É simplesmente o espaço onde alguém diz o que precisa dizer, independente de quem isso incomoda. E quando esse espaço existe, quando as vozes circulam e as perspectivas diferentes se encontram na mesma prateleira, a sociedade tem como se enxergar de formas que nenhum outro formato permite.

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A literatura não pertence a nenhum lado
Ao longo da história, cada sociedade deixou pistas da própria alma através das narrativas que produziu. Os gregos escreviam mitos para explicar fenômenos naturais e dilemas morais. O período medieval produziu predominantemente textos religiosos. O Iluminismo trouxe Voltaire e Rousseau questionando o poder das monarquias. O século XIX produziu tanto o realismo social de Dickens quanto o romantismo conservador de outros autores da mesma época. Lado a lado, na mesma estante.
O que isso mostra é que a literatura nasce de uma necessidade. A necessidade de nomear o que está acontecendo, dando forma ao que seria insuportável ficar sem forma, e poder deixar registrado que alguém esteve aqui e sentiu e pensou e observou.
Carolina Maria de Jesus catava papel na favela do Canindé, em São Paulo, e escrevia no verso desse papel um diário que se tornou um dos livros brasileiros mais traduzidos do século XX. E isso não aconteceu porque ela tinha um projeto político elaborado. Foi porque ela precisava escrever o que estava vivendo. O mundo que ela descreveu era o mundo dela, específico, pessoal, real. E é por isso que atravessou fronteiras geográficas e temporais e chegou a leitores em mais de 40 países.
Machado de Assis, do outro lado do espectro social, escrevia sobre a elite carioca com uma ironia tão fina que demorou décadas para a crítica reconhecer completamente o que ele estava fazendo. Perspectiva diferente, linguagem diferente, mundo diferente. Os dois são literatura brasileira. Os dois dizem verdades sobre o que somos.
Quando silenciar vozes custou caro
Uma das formas mais reveladoras de entender o valor da literatura é olhar para os momentos em que ela foi proibida. E o dado mais importante aqui não é quem foi censurado, mas o fato de que a censura sempre acontece. Em toda época ou lugar onde alguém decide que determinadas ideias não podem circular.
Durante a ditadura militar brasileira, livros foram proibidos, editoras fechadas, escritores presos, músicos calados. Mas o mesmo aconteceu em regimes de todas as orientações ao longo da história. A censura não tem ideologia preferida. Ela aparece onde há poder concentrado que teme ser questionado, seja qual for a bandeira que esse poder carrega.
O que isso nos diz é que a palavra escrita incomoda o poder porque o poder sabe que ela tem efeito real, pois as histórias mudam mentes, perspectivas circuladas em larga escala constroem e reconstroem a forma como uma sociedade se entende. Quando um governo censura um livro, está admitindo de forma torta que aquele livro importa.
E a resposta da literatura sempre foi de continuar existindo. Por outros meios, com outras linguagens, nas entrelinhas, nos samizdat copiados à mão na União Soviética, nos panfletos distribuídos clandestinamente, nos textos publicados com pseudônimos. Tudo isso, fazendo a palavra encontrar um caminho, porque a necessidade de dizer não some quando alguém tenta silenciá-la.
O que a boa literatura faz que nenhum manifesto consegue
Existe uma diferença fundamental entre um texto que argumenta e um texto que narra. O argumento pede que você concorde, já a narrativa pede que você habite.
Quando você lê sobre um personagem cuja vida é radicalmente diferente da sua, algo acontece que vai além da informação. Você passa algum tempo dentro de uma perspectiva que não é a sua. Você sente o que aquela pessoa sente, vê o que ela vê, toma decisões junto com ela. Isso deixa um rastro. Não necessariamente muda sua opinião sobre nada. Mas amplia o mapa do que você reconhece como humano.
É por isso que Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, um romance sobre trabalho escravo contemporâneo no sertão da Bahia, foi vendido para editoras em dezenas de países e lido por pessoas que nunca estiveram no Brasil e provavelmente nunca estarão. O que alcançou leitores na Croácia e na Eslováquia não foi o dado social, mas sim, a experiência de habitar aquelas vidas por algumas horas. Isso é o que a ficção faz que o documentário, o manifesto não conseguem da mesma forma.
E esse mecanismo funciona para qualquer perspectiva, experiência, seja qual for a verdade. Não existe tema que não mereça ser narrado, nem vida que não possa gerar literatura. A questão aqui é que mesmo você tendo algo a dizer, você teria coragem de dizer?
Escrever é posicionar-se, não necessariamente politicamente
Quero ser clara sobre o que estou defendendo aqui, porque é fácil confundir.
Não estou dizendo que toda escrita precisa ter uma mensagem ou uma causa. Estou dizendo que toda escrita genuína revela um posicionamento. Quando você escolhe colocar algo em palavras, está reconhecendo sua existência, dando importância àquilo e afirmando que merece ser visto e nomeado. Escrever é olhar para o que existe dentro ou ao redor de nós e decidir não deixá-lo passar em silêncio, dando forma àquilo que, de outra maneira, permaneceria invisível. Nesse sentido, toda escrita autêntica é também uma escolha de não silenciar.
Então, o problema não é escrever sobre política. O problema é quando escrevemos sem verdade. Textos que existem pra confirmar o que o leitor já pensa, não oferecendo nenhuma fresta de perspectiva nova, só usando a linguagem como megafone em vez de como instrumento de descoberta, esses textos podem ter qualquer orientação e ainda assim não ser literatura no sentido mais profundo da palavra.
A literatura que dura é aquela que foi escrita de um lugar honesto. Onde o escritor teve que enfrentar alguma coisa pra escrever. Que não sabia completamente o que ia encontrar quando começou. Orwell não sabia que A Revolução dos Bichos seria rejeitado por seus aliados antes de ser publicado. Carolina de Jesus não sabia que seus diários seriam lidos em 40 países. Só o que os dois sabiam era que precisavam escrever. E fizeram isso.
Por que isso importa para quem escreve
Se você escreve, ou quer escrever, ou está no começo de descobrir o que isso significa pra você, essa história toda tem uma implicação prática muito concreta.
A sua perspectiva importa, não porque é politicamente correta ou incorreta, nem porque está alinhada com alguma causa ou contrária a ela. Importa porque é SUA. Porque só você viveu o que você viveu, da forma como viveu, com os olhos que você tem. E nenhum algoritmo ou tendência editorial, substitui isso.
A literatura que muda alguma coisa em alguém, seja mudar a forma de pensar sobre um assunto, seja mudar a forma de sentir sobre a própria vida, essa literatura nasce de um lugar específico e honesto, não de um cálculo sobre o que vai vender ou o que vai ser bem recebido.
Escreva o que você realmente tem a dizer. Isso é suficiente. E pode ter certeza que, na maioria das vezes, é o que alguém precisava ler.

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Reflexão cósmica
A Deusa da Terra lembra que cada história nasce do chão que pisamos, do que vemos de onde estamos, e que nenhuma perspectiva é maior ou menor do que outra quando nasce de um lugar verdadeiro. O Deus do Universo lembra que o cosmos inteiro é feito de vozes diferentes soando ao mesmo tempo, e que o silêncio de qualquer uma delas empobrece o conjunto.
Quando os dois sussurram juntos, dizem que a literatura é o lugar onde a humanidade se olha de frente, com todas as suas contradições, e decide continuar a conversa.
Entre versos e universos,
Julia Abreu
Referências para se aprofundar
Literatura e sociedade: livros podem mudar o mundo, ICL Notícias análise de casos em que a literatura influenciou debates sociais ao longo da história.
Como a literatura reflete as mudanças sociais, Palavra Encantada sobre os mecanismos pelos quais a ficção captura e transforma o que uma sociedade pensa sobre si mesma.
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