Cósmico leitor, esse texto nasceu das palavrinhas que vocês me mandaram na caixinha lá do insta, e foi uma delícia transformar cada uma delas em história. Espero que, ao ler, vocês encontrem um pedacinho de leveza e lembrem que a criança que fomos ainda mora em algum lugar da gente. Boa leitura!

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Onde a infância ainda mora
O sol ainda nem tinha decidido se aparecia ou não quando recebi a mensagem dele:
“Vai ter passeio no parque com as crianças. Quer vir? Faz tempo que não te vejo.”
Eu ri. O universo, na sua bagunça de sempre, tinha senso de humor. Justo no Dia das Crianças, depois de anos sem notícias, ele me chamava. Ele, o mesmo menino que roubava meu lanche e dizia que éramos casados “de faz de conta”.
Cheguei com meus sobrinhos, armada de paciência e de um balde de protetor solar. Ele já estava lá, sentado na grama com os dois filhos. O menino, de uns oito anos, chutava uma bola contra o vento; a menina, bem menor, de vestido vermelho, tentava modelar um passarinho de massinha. Ele parecia o mesmo, talvez um pouco mais lobo e menos anjo, mas o sorriso era idêntico.
— Olha só quem voltou pra me perdoar — disse ele, com aquela franqueza que sempre me irritou e me encantou na mesma medida.
— Eu vim pela pipoca, não por você.
Ele riu, e aquele som, que eu reconheceria em qualquer lugar, bateu forte.
Ficamos ali, cercados por crianças que gritavam nos infláveis e por uma chuva de bolhas de sabão. Falamos da vida, das mudanças, dos anos em que cada um seguiu seu caminho. Ele contou do casamento que virou decepção; eu, dos planos que viraram aprendizado. Aos poucos, uma leveza meio infantil foi tomando conta de nós.
Quando uma das crianças pediu para subir no dromedário inflável, ele me olhou:
— Aposto que você ainda corre mais rápido do que eu.
— Aposto que não — respondi, já sabendo que perderia.
Corremos. Caímos. Rimos tanto que quase esquecemos que éramos adultos. Algo se abriu dentro de mim, e não, não era reflexão. Era só o impulso puro de quem lembra como é ser feliz sem motivo.
Ele me ajudou a levantar, segurando minha mão com a mesma confiança de quando éramos pequenos. Disse que eu ainda tinha a mesma luz e a mesma paixão, e que era isso que sempre o fazia acreditar que o mundo podia ser bom.
Desviei o olhar, fingindo observar as raízes da árvore mais próxima.
A filha dele veio correndo e se jogou em seu colo. Então ele me olhou, e naquele silêncio cheio de saudade entendemos tudo o que foi, o que não foi, o que talvez nunca fosse…. Percebi também que algumas pessoas voltam para iluminar o presente.
O sol começava a se pôr e o parque se enchia de risadas. Nos olhamos e soubemos que ainda não era hora de acabar. Ele perguntou, depressa, se eu queria tomar um café depois. Respondi “sim” tão rápido que nós dois rimos.
Reunimos as crianças, e percebi que eu tentava me conter na frente delas. Ele deu de ombros, sorrindo, e me estendeu um pirulito:
— Toma. Para adoçar a vida, doutora bruxa.
Aceitei, rindo.
— Obrigada, professor de prosperidade emocional.
E fomos, atravessando o parque com as crianças, rindo como dois bobos. Ele empurrava o carrinho de mochilas, eu equilibrava os brinquedos e o balde de pipoca, enquanto o sol se despedia com preguiça.
— Engraçado… — ele disse, meio rindo, meio sério. — Você ainda me dá aquela felicidade boba, sabe?
— E você ainda me dá trabalho — respondi, tentando disfarçar o sorriso.
As crianças dispararam na frente, e ele saiu atrás delas com o carrinho, gritando que era o “lobo da pipoca”. Ri tão alto que quase derrubei o balde.
— Ei, doutora bruxa! — ele gritou, já longe. — Acha que ainda sabe correr sem cair?
E lá fui eu, com o fôlego que me sobrou e uma certeza de que a grande arte de viver é tentar não cair antes das crianças.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Obrigada por ler até aqui! Espero que a história tenha arrancado um sorriso e despertado a criança que mora em você.
E se você quer ver suas palavrinhas viradas em texto, participe no insta. Me mande na caixinha as palavras que quiser. É sempre muito gostoso criar com vocês, e a próxima história pode nascer da sua sugestão. Até a próxima, estrelinhas.
Entre versos e universos,
Julia Abreu


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