Cósmico leitor, todo escritor conhece o bendito “bloqueio criativo”, aquele momento que você senta, abre o documento ou o caderno, e fica olhando para o branco. E você não faz isso porque não tem nada a dizer. Muitas e muitas vezes, é o contrário, tem tanto que não sabe por onde começar. Mas tem uma voz dentro da cabeça que já está avaliando antes de qualquer palavra ter sido escrita, dizendo que o começo está fraco, que a ideia não é tão boa assim, que talvez fosse melhor esperar até ter algo mais interessante para dizer.
Essa voz é o problema. Não a página em branco.
A página em branco é só um espaço esperando. O que trava não é ela, é o que a gente projeta nela antes de começar a escrever.
O que é a síndrome da página em branco, de onde ela veio
O conceito de bloqueio de escritor foi documentado pela primeira vez em 1947 pelo psicanalista Edmund Bergler. Ele observou que esse bloqueio pode ser total ou parcial, e que as primeiras manifestações geralmente aparecem por meio de sentimentos de insegurança em relação à própria criatividade.
O bloqueio criativo não é um vazio de ideias, como muitos acreditam ser. É um excesso de julgamentos. O bloqueio muitas vezes nasce de um conflito interno do desejo de expressar e do medo da crítica, interna ou externa. As três bases mais comuns são o perfeccionismo paralisante, que é querer que a primeira versão seja um clássico da literatura, o medo do julgamento, que é pensar no que os outros vão achar e a ausência de uma rotina de escrita, que é esperar pela inspiração em vez de criar o hábito.
Isso importa porque nomear o problema muda a relação com ele. Então, quando você entende que o bloqueio não é falta de talento, como um sinal de que você não deveria estar escrevendo, e começa a entender que é apenas um mecanismo psicológico muito bem documentado que acontece com praticamente todo escritor em algum momento, a página em branco perde parte do poder que tem sobre você.
Os gatilhos para esse bloqueio variam de pessoa para pessoa. Pode ser exaustão física e mental, uma rotina muito corrida, estresse, tristeza, crises depressivas, ou ainda um perfeccionismo que cria uma espécie de ressaca criativa. Não é sempre o mesmo motivo. Por isso a solução também não é sempre a mesma.
Por que o primeiro rascunho precisa ser horrível
Anne Lamott escreveu um ensaio que se tornou um dos textos mais citados no mundo da escrita criativa. O título em inglês é “Shitty First Drafts”, que em tradução livre seria algo como “Primeiros Rascunhos Horríveis”. A ideia central é simples e libertadora, pois o primeiro rascunho é sobre colocar palavras na página sem se preocupar se são boas ou ruins. É saber se permitir a escrever mal, sabendo que a revisão é onde o trabalho real acontece.
Lamott argumenta que praticamente nenhum escritor produz um primeiro rascunho brilhante. Até escritores experientes enfrentam ansiedade e falta de inspiração no começo de um texto. O ensaio dela mostra com humor como escrever um primeiro rascunho frequentemente envolve simplesmente colocar palavras na página sem se preocupar se são boas ou ruins.
E ela não está sozinha nessa defesa. Se você é um cósmico leitor ativo do blog, vai saber que Stephen King também fala sobre a importância de rascunhar livremente e silenciar o crítico interno durante a primeira passagem. Em Sobre a Escrita, ele descreve o processo criativo como duas etapas distintas: a porta fechada, onde você escreve para si mesmo sem se preocupar com o resultado, e a porta aberta, onde o texto encontra o leitor. A revisão mora no meio.
O que esse princípio faz na prática é separar dois atos que a gente costuma confundir de escrever e editar. Quando você tenta fazer os dois ao mesmo tempo, que é escrever uma frase e já julgar se está boa antes de continuar, você trava. A autocrítica interrompe o fluxo criativo antes que ele se estabeleça. O rascunho horrível existe para que você escreva com a criatividade ligada e revise depois com o julgamento ligado. Nunca os dois ao mesmo tempo.
O perfeccionismo é a voz do opressor, o inimigo das pessoas. Ele vai te manter travado e ansioso a vida toda, e é o principal obstáculo entre você e um primeiro rascunho terrível. Essa frase é da Lamott, e ela é mais importante do que parece. Porque, acredite se quiser, o perfeccionismo é só um medo disfarçado da exigência, e não um padrão alto de qualidade.
O que acontece no cérebro quando você trava
A explicação neurológica para o que acontece quando a autocrítica entra antes da hora é que o córtex pré-frontal, a região do cérebro associada ao julgamento, ao planejamento e à avaliação crítica, e o córtex pré-frontal medial, associado ao pensamento criativo e ao fluxo de ideias, funcionam em tensão. Quando um está muito ativado, o outro recua. É por isso que estados de relaxamento ou distração leve, como tomar banho, caminhar, ou acordar ainda sonolento, são tão famosos como momentos de insights criativos. O julgamento baixou a guarda, e a criatividade aproveitou a abertura.
Quando você senta para escrever com a pressão de que o resultado precisa ser bom, o córtex pré-frontal entra em campo com força total. E aí o fluxo criativo recua. O rascunho horrível é literalmente uma técnica para enganar esse mecanismo onde você escreve sem pressão de resultado, o julgamento relaxa, e as ideias aparecem com mais liberdade.
Dicas para sair do branco quando o bloqueio chega
Não existe uma fórmula que funciona para todo mundo, mas existem práticas que, testadas com consistência, ajudam a maioria dos escritores a retomar o movimento quando travam.
Escreva algo horrível de propósito.
Isso parece absurdo, mas funciona. Pegue a cena que está travando e reescreva ela da forma mais clichê, exagerada e dramática que conseguir. Sem censura nenhuma. Esse exercício quebra a tensão do perfeccionismo e muitas vezes, no meio do absurdo, aparece algo que você queria dizer de verdade.
Use uma frase de abertura fixa.
Quando não souber por onde começar, escreva “Eu não sei o que escrever, mas sei que…” e continue daí. Ou “O que quero dizer com isso é…” Essas frases de entrada tiram você do branco sem exigir que você já tenha a frase perfeita.
Coloque um timer de 10 minutos e escreva sem parar.
A regra é não levantar a caneta ou parar de digitar. Não importa o que sai. Esse é o freewriting que Peter Elbow e Julia Cameron defenderam por décadas, e ele funciona porque transforma a escrita de um produto a ser avaliado em um processo a ser vivido.
Mude o ambiente.
Como já trouxe várias vezes aqui, bloqueio criativo pode ser resultado de esgotamento, trauma, ou de um sentimento específico que limita a ação. Pode ser que sair do lugar onde você costuma escrever, como ir pra uma cafeteria ou simplesmente mudar a cadeira de lugar, é suficiente para quebrar o padrão mental que estava te prendendo.
Escreva pela metade.
Uma das técnicas que mais uso é terminar o dia de escrita no meio de uma frase, de uma cena, por exemplo. Quando você volta no dia seguinte, não está diante do branco, mas sim, diante de algo pela metade que pede para ser terminado. O impulso de continuar é muito mais fácil de acionar do que o impulso de começar.
Permita-se não gostar do que sai.
Isso parece simples e é o mais difícil. A maioria dos bloqueios existe porque o escritor não quer se decepcionar com o próprio texto. Mas decepcionar-se com um rascunho é parte do processo, não é fracasso. O rascunho existe pra ser melhorado. Ele não precisa ser bom agora.
Uma coisa que ninguém fala o suficiente
O bloqueio criativo não é o mesmo para todo mundo. Para algumas pessoas, ele aparece no início como dificuldade de começar. Para outras, no meio como você começou bem mas travou no capítulo 8 e não sabe como sair. Para outras ainda, no fim como o texto existe mas você não consegue terminar porque terminar significa expor.
Cada tipo de bloqueio tem causas diferentes e pede respostas diferentes. A síndrome do impostor em escritores é muito comum, fazendo com que você pense que não é bom o bastante. A procrastinação pode fazer com que a pressão para escrever se torne ainda maior, criando um ciclo vicioso onde você vai evitando a escrita progressivamente porque não quer lidar com essa pressão.
Reconhecer qual é o seu tipo de bloqueio é mais útil do que tentar aplicar uma solução genérica. E, especialmente quando o bloqueio está ligado a algo mais profundo, a questões de autoestima ou de medo de exposição, é muito mais sobre autoconhecimento do que sobre técnica de escrita.
Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Reflexão cósmica
A Deusa da Terra sabe que nenhuma semente sai da terra perfeita. Ela sai torta, quase feia. E costuma ser assim que precisa sair para crescer. O primeiro rascunho é a semente que ainda não sabe o que vai se tornar, mas que precisava sair do escuro pra começar.
O Deus do Universo lembra que nenhuma constelação foi traçada de uma vez só. Foram pontos, depois linhas, depois um padrão que alguém com coragem de continuar olhando conseguiu ver. O texto que você quer escrever está nos pontos que você ainda precisa colocar no papel, mesmo que tortos.
Escreva o primeiro rascunho horrível, e lembre-se de que ele é a única porta que existe para o texto que você quer que ele se torne.
Que tal hoje você abrir um documento, colocar um timer de 10 minutos, e escrever a cena ou o texto que você vem adiando? Horrível mesmo e sem julgamento. Apenas escreva.
Entre versos e universos,
Julia Abreu.
Referências externas
O medo da página em branco: como transformar a insegurança na sua maior aliada criativa pesquisas de Edmund Bergler e nas causas psicológicas do bloqueio criativo.
A síndrome da página em branco experiência de uma pesquisadora que viveu o bloqueio na escrita acadêmica e desenvolveu um método para superá-lo.
Bloqueio criativo: o que é e como superá-lo com 15 dicas guia prático com causas e estratégias organizadas por tipo de bloqueio.
The Shitty First Draft: why smart authors start somewhere análise do conceito de Anne Lamott e como aplicá-lo na prática.
Bird by Bird, de Anne Lamott o livro de onde vem o conceito do primeiro rascunho horrível, e muito mais sobre o processo real de escrever.
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