Cósmico leitor, semana passada abri a caixinha de perguntas no story pedindo as palavras soltas, aquelas que vêm à cabeça sem pensar muito. Vocês mandaram um punhado delas, eu sorteei e aí fui costurando até um narrador aparecer sozinho. Dessa vez ele decidiu que tinha quatro patas, morava embaixo de marquise, e um nome de filósofo grego roubado da vitrine de uma livraria.
Ele se chama Diógenes. E como todo bom filósofo de rua, tem opinião formada sobre gato de sofá e sobre humano que joga banana boa fora. Deixo vocês com o olhar cínico e generoso dele. Boa leitura.
Diógenes, o Cão Filósofo
Meu nome, se é que vira-lata precisa de nome, é Diógenes. Escolhi sozinho, li numa placa de livraria através de uma vitrine, gostei do som, e resolvi que combinava com minha rotina de morar embaixo de marquise e julgar silenciosamente a vida alheia. É, não me julgue. Tem filósofo grego que fazia isso dentro de um barril. Eu faço isso andando pelas ruas, com toda a agilidade que sobra depois de fugir de três carros e uma vassourada.
Hoje passei em frente àquela casa amarela da esquina, a que tem gato na janela. Ele estava lá, deitado numa almofada, com aquela cara de quem descobriu gnose antes de todo mundo e não pretende dividir o conhecimento. Fiquei observando um tempo. Gato tem esse dom filosófico natural de parecer superior fazendo absolutamente nada. Eu, cachorro de rua, mal tenho tempo pra filosofia, porque enquanto ele medita sobre a estrela menos brilhante do céu, lá de cima, eu tô aqui embaixo decidindo se vale o desafio de atravessar a rua pra cheirar aquele saco de lixo suspeito.
Reparei também que na mesma casa tem uma mesa perto da janela, e de vez em quando aparece um bebê batendo a mãozinha no vidro, rindo de mim como se eu fosse a atração da tarde. Não sou. Sou um profissional de sobrevivência urbana. Ele deveria entender isso. Mas confesso que aquela risada besta de bebê é capaz de amolecer até cachorro cínico, então sigo andando rápido antes que isso vire sentimentalismo.
O frio tá brabo essa semana, e cachorro de rua desenvolve uma resiliência que gato de sofá nunca vai entender. Enquanto ele dorme embrulhado em cobertor, eu calculo estratégia pra sobreviver a noite, como um general de guerra particular, só que a guerra é contra o vento gelado e a falta de teto.
Outro dia vi um humano jogar bananas fora, ainda boas, só porque a casca ficou meio escura. Com toda a minha sinceridade, isso é um desperdício filosoficamente ofensivo. Eu comeria aquilo com gratidão genuína, sem drama. Às vezes acho que os pets de casa perderam a noção de fome de verdade, tão ocupados discutindo ração premium enquanto eu sonho, de vez em quando, com uma jangada imaginária cheia de comida boa navegando direto até minha esquina.
Lá longe, numa varanda bucólica cheia de flores mal cuidadas, avistei outro gato deitado olhando as nuvens passarem, como se tivesse todo tempo do universo pra ele. Deve ser bom. Eu, cachorro sem coleira, também tenho minha liberdade, só que a minha vem com preço, tipo fome e uma saudade besta de nunca ter tido uma cama fixa.
Mas não me entendam mal. Não troco minha liberdade por grade de condomínio nenhuma. Gosto de andar sem hora pra voltar. Não consigo nem imaginar uma coleira apertando o meu pescoço. Só que de vez em quando, olhando aquele gato filosófico e paradão na janela, bate uma esperança besta de que talvez, um dia desses, alguém decida que eu também mereço uma almofada e uma mesa com sobra de comida.
Até lá, sigo minha rota noturna, observando os pets de casa com meu olhar cínico de rua, tirando conclusão filosófica de tudo, porque filosofia de vira-lata também é filosofia. Só que sem manual e sem almofada.
Assinado, com a dignidade possível pra quem dorme embaixo de marquise,
Diógenes, cachorro observador de janelas.
Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Obrigada a todo mundo que mandou uma palavra pro story e ajudou o Diógenes a ganhar voz. Esse é um dos meus formatos favoritos de escrever por aqui, porque nunca sei onde as palavras de vocês vão me levar até estarem todas juntas na página.
Mês que vem tem mais. Fiquem de olho no story, porque a próxima história cósmica também vai nascer das palavras de vocês.
Entre versos e universos,
Julia Abreu
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O dia em que meu gato decidiu falar porque também dá voz a um animal para falar de vida, do mesmo jeito que o Diógenes narra a dele com humor e observação.
O Barulho do Recomeço porque fala de recomeçar depois do que já passou, a mesma esperança besta de “quem sabe um dia” que fecha a história do cachorro.
Existem pessoas que aprendem a amar no escuro porque fala de aprender a amar mesmo sem garantia nenhuma, como o Diógenes que segue sonhando com uma almofada sem saber se um dia ela vem.





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