Cósmico leitor, experiências nos moldam de formas que nem sempre conseguimos nomear na hora. Às vezes a mudança é silenciosa, vai acontecendo por baixo, e só muito depois você olha pra trás e percebe que não é mais a mesma pessoa que entrou naquele período. Outras vezes a mudança chega como tempestade, rápida e barulhenta, e você está no meio dela antes de ter tempo de preparar qualquer coisa.
As desilusões costumam ser assim. Pequenas ou grandes quebras de expectativa que deixam marcas na pele e na alma. Que chegam sem aviso e, num primeiro momento, parecem só destruir. Mas muitas das coisas mais importantes que construí na minha vida, inclusive a escrita da forma como ela existe hoje, nasceram de desilusões. E é sobre isso que quero falar aqui, de forma honesta, sem romantizar o que dói, mas também sem esquecer o que o que doeu acabou gerando.
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O que as minhas desilusões têm em comum
Já vivi desilusões de muitos tipos. As amorosas, que rasgaram cartas e promessas. As de vida, quando caminhos cuidadosamente planejados não deram certo e eu me vi sem mapa em lugares que não escolhi estar. E as internas, talvez as mais silenciosas e as mais difíceis de admitir, quando me decepcionei comigo mesma. Quando agi de formas que não reconhecia, quando escolhi o caminho errado sabendo que era o errado, quando deixei de me escutar por tanto tempo que perdi o fio de quem eu era.
Em todas elas, a escrita estava ali.
E não posso dizer que foi como solução ou como algo que apagasse o que estava acontecendo. Escrever nos coloca frente a frente com a dor, não nos afasta dela. Mas ela esteve ali como abrigo, sendo o único espaço onde eu conseguia ser completamente honesta, sem precisar proteger ninguém dos meus sentimentos, nem precisar fazer sentido imediato ou precisar estar bem.
Eu anotava em diários sentimentos que nem eu mesma compreendia ainda. Rabiscando frases soltas no meio da madrugada. Escrevendo cartas que nunca seriam entregues, onde dizia tudo que não cabia em nenhuma conversa real. Criava personagens que sentiam aquilo que eu não conseguia admitir em voz alta, que faziam as escolhas que eu temia fazer, que viviam versões das minhas histórias com finais que eu não tinha coragem de imaginar pra mim. De alguma forma, tudo isso transformava os nós da minha vida em linhas. Eu conseguia dar sentido ao que antes parecia só caos.
Desilusões como portais
Com o tempo, e não foi rápido, fui percebendo que minhas desilusões eram, além de quedas, portais. Cada uma delas abriu algo em mim que provavelmente não teria se aberto de outra forma. Trouxe uma sensibilidade que antes estava adormecida, me fazendo olhar mais profundamente, onde consegui ter a capacidade de enxergar nuances nas situações e nas pessoas que eu simplesmente não tinha antes de ter passado por determinadas dores.
Cada texto que nasce de uma dor já não é mais sobre a dor em si. Vai para aquilo que fomos capazes de construir a partir dela. Essa distinção importa muito pra mim, porque não quero romantizar o sofrimento como se ele fosse necessário ou bom em si mesmo. A dor não é um presente que a vida dá, mas é o que a gente faz com ela que pode se tornar um.
Carrego uma frase pra vida que ganhou sentido pra mim especialmente nesses momentos: “tudo é questão de perspectiva.” Não como conselho fácil ou como forma de minimizar o que dói. Mas como lembrete de que aquilo que vemos também depende do olhar que escolhemos carregar. Se olharmos tudo pelo filtro do julgamento e da negatividade, é só isso que encontraremos pelo caminho. Mas se conseguimos acreditar, mesmo com dificuldade, caminhando devagar, um passo de cada vez, que existe algo além do momento mais escuro, chegamos à claridade. E quando chegamos, percebemos que existe uma paisagem inteira nos esperando lá.
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O poema que nasceu de uma desilusão
Já que estamos nesse território íntimo, quero compartilhar algo que nasceu de uma das minhas. Um poema que surgiu num daqueles momentos em que eu não sabia mais o que fazer com o que estava sentindo, então fiz a única coisa que sempre funciona pra mim.
Escrevi.
Rima de sobrevivência
Cheia de quedas e tropeços,
descobri que rir de mim mesma
é um remédio secreto.
As cartas que nunca chegaram,
com planos que desmoronaram,
viraram piada interna no meu diário.
E com isso que vivi
Não reprimi
só percebi
Que no traço da solidão,
escrevi consolação…
até o tropeço mais duro
rima com superação.
Esse poema não tentou resolver nada, mas ele me fez rir de mim mesma num momento em que eu estava levando tudo pesado demais, e sério, muitas vezes é isso que precisa acontecer primeiro.
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Reflexão cósmica
A Deusa da Terra sussurra que cada desilusão é um chamado para enraizar-se em si mesma, onde as raízes mais fundas crescem nos solos mais difíceis, onde a planta precisou se esforçar pra encontrar água.
O Deus do Universo lembra que o caos é matéria-prima, onde as constelações mais belas não nasceram de ordem, mas de explosão, de força, de elementos que colidiram antes de encontrar forma.
Entre eles, aprendi que as dores são transformação. Um convite para unir cura e criação num mesmo gesto, e descobrir que essas duas coisas são a mesma coisa.
Convite à escrita:
Que tal você também escrever sobre uma desilusão que já viveu? Não precisa fazer sentido logo de cara. Pode ser um diário, uma carta que nunca será enviada, três frases soltas, um poema torto como o meu.
Só deixe que as palavras façam o trabalho de reorganizar o que parece pesado demais pra carregar sozinho.
Você vai se surpreender com o que aparece quando você para de tentar controlar o que sai e simplesmente começa.
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A Sombra Tem Ouro Dentro porque escrever o que dói e escrever a sombra são gestos que se encontram no mesmo lugar.
O tempo que temos e o que nunca é o bastante uma reflexão sobre o que fazemos com os momentos que temos, inclusive os mais difíceis.





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