Cósmico leitor,
Hoje é Dia do Contador de Histórias.
Essas pessoas que carregam narrativas no bolso como quem guarda pequenos mundos. Elas transformam momentos comuns em memórias, fazendo silêncios se transformarem em memórias
Um contador de histórias não precisa de palco. Às vezes basta uma mesa, uma xícara de café e alguém disposto a ouvir. Porque as histórias vivem justamente na passagem de uma voz para outra e de um olhar curioso para um coração atento.
O texto de hoje nasce desse encontro simples.
De uma conversa que poderia acontecer em qualquer lugar, talvez em uma padaria, numa manhã comum, onde alguém decide começar a contar… e outro alguém decide ficar para escutar.
Aquela história
Tem histórias que começam com acontecimentos grandiosos.
A minha não.
Ela começa com uma padaria.
Sim. Uma padaria. E era uma daquelas padarias antigas, com um café bem forte. A cada entrada, o sino na porta tilintava como se fosse um evento importante. Eu estava sentada perto da janela, tentando decidir se pedia outro café ou fingia que já tinha acordado o suficiente para encarar o dia.
Foi quando ele entrou.
Um senhor de chapéu gasto e passos lentos, daqueles que parecem carregar tempo demais nos bolsos. Ele pediu um pão com manteiga, sentou na mesa ao lado e ficou olhando para a rua como quem esperava alguém que talvez não viesse.
Não demorou muito para começarmos a conversar.
Essas coisas acontecem com facilidade quando duas pessoas dividem silêncio suficiente.
Ele disse que gostava de histórias.
— Histórias de verdade? — perguntei.
— Não — respondeu. — Das outras.
Achei curioso.
Então ele começou a contar sobre uma mulher que, muitos anos atrás, pegou um trem sem saber exatamente para onde estava indo. Disse que ela só queria sair da cidade onde tudo parecia pequeno demais para os sonhos que tinha.
No trem, ela conheceu um rapaz que carregava um violão e uma expressão de quem ainda estava aprendendo a existir.
Eles conversaram a viagem inteira. Sobre tudo.
Quando o trem chegou ao destino final, já estavam rindo como se fossem velhos conhecidos.
Mas aí aconteceu… Cada um precisava seguir para um lado diferente. É, e uma dessas coisas que só as histórias sabem fazer:
Prometeram se encontrar de novo algum dia.
Nunca marcaram lugar, nem sequer alguma hora.
— E eles se encontraram? — perguntei.
O senhor deu de ombros.
— Histórias não são muito boas em promessas.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
O sino da porta tocou novamente quando alguém entrou na padaria. O cheiro de pão quente se espalhou pelo salão e, por um momento, tudo parecia absurdamente comum.
— E o que aconteceu depois? — perguntei.
Ele terminou o café, levantou devagar e colocou algumas moedas sobre a mesa.
— Depois? — disse ele, ajeitando o chapéu. — Depois alguém contou essa história.
Eu achei que ele estava indo embora.
Mas antes de sair, ele olhou para trás e perguntou:
— E você… gostou?
Foi quando percebi que você ainda estava aqui, me ouvindo.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Então me diga, cósmico leitor:
Você acredita que histórias escolhem quem vai contá-las…
ou quem vai escutá-las?
Entre versos e universos,
Julia Abreu


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