Cósmico leitor, hoje quero te fazer uma pergunta.
Quando foi a última vez que você parou para observar os seus medos?
E não, não apenas senti-los. Observar-los.
A maioria de nós passa boa parte da vida tentando evitar aquilo que nos assusta. Ocupamos a mente com outras coisas ou simplesmente fingimos que determinados sentimentos não existem. Parece mais fácil seguir em frente do que encarar certas emoções de frente.
Mas existe algo curioso sobre os medos, que eu percebi quando comecei a escrever, inclusive. Aquilo que evitamos costuma crescer no escuro.
Pois é. Quanto menos olhamos para algo, maior ele parece se tornar dentro da nossa imaginação. Sendo por isso que tantas histórias são povoadas por monstros, fantasmas, criaturas sombrias, florestas perigosas… E eu não acredito que essas histórias estejam falando sobre o sobrenatural. Acredito que elas falam sobre nós mesmos, já que a fantasia sempre encontrou maneiras de transformar emoções humanas em imagens que conseguimos compreender. E a escrita possui essa mesma capacidade.
Uma página em branco é capaz de se tornar um espaço seguro para olhar para aquilo que normalmente evitaríamos. Um medo que parecia impossível de explicar pode ganhar forma através de um personagem, por exemplo.
E, quando isso acontece, algo começa a mudar dentro de nós.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Transformando o nosso medo em arte
Sentir um medo é bem diferente de conseguir compreendê-lo.
Quando estamos no meio de uma situação difícil, geralmente enxergamos apenas a emoção. Sentimos tudo aquilo que não gostamos de sentir (ansiedade, insegurança, tristeza, preocupação), mas raramente conseguimos identificar com clareza o que está acontecendo por trás desses sentimentos. É como tentar observar uma paisagem estando no meio da tempestade.
A escrita tem a capacidade de criar distância. Então, quando colocamos uma emoção no papel, ela deixa de existir apenas dentro da nossa mente e passa a ocupar um espaço concreto diante dos nossos olhos. Pela primeira vez, conseguimos observá-la e questioná-la, muitas vezes compreendendo aspectos que antes pareciam invisíveis.
Pensando nisso, podemos entender o por quê tantas pessoas relatam uma sensação de alívio depois de escrever. O problema nem sempre desaparece, claro, mas deixa de ser algo difuso e impossível de alcançar. Conseguimos transformar aquela mera sensação em um significado com forma. Sendo aí que a fantasia se torna uma ferramenta tão interessante.
Enquanto a escrita expressiva nos ajuda a olhar para uma emoção diretamente, a fantasia permite que façamos isso através de símbolos. Ou seja, em vez de falar sobre a insegurança em si, podemos imaginar uma cidade onde todos usam máscaras para esconder quem realmente são.
Uma história assim pode parecer distante da realidade, eu sei, mas muitas vezes carregará verdades emocionais profundas. Levando em consideração que nem sempre conseguimos falar sobre algo de forma direta (quase nunca, na verdade). Por isso eu sempre reforço que em alguns momentos, precisamos da imaginação para chegar a lugares que a lógica sozinha não alcança.
Esse é o grande motivo do por quê tantas pessoas encontram conforto nas histórias. Porque elas nos permitem enfrentar nossos próprios monstros enquanto observamos alguém enfrentando os seus.
O que acontece quando damos um nome ao medo?
Eu queria também trazer que existe algo interessante que acontece quando paramos de fugir de uma emoção e começamos a observá-la. Ela deixa de ser apenas uma sensação confusa e passa a ter contornos mais definidos.
Ok, mas como?
Pense em uma criança que tem medo do escuro. Enquanto ela não sabe o que existe naquele quarto, qualquer sombra pode parecer um monstro. Só que, quando a luz é acesa, ela percebe que aquilo que a assustava era apenas uma cadeira com algumas roupas em cima. O medo não desaparece porque alguém mandou ele embora. Ele diminui porque agora existe compreensão.
E com as emoções acontece algo parecido.
Muitas vezes carregamos inseguranças ou dores que parecem enormes só porque nunca paramos para olhar para elas de verdade. Quando escrevemos, somos obrigados a desacelerar. Precisamos encontrar palavras e organizar toda aquela bagunça de pensamentos, dando forma ao que antes existia apenas como sensação.
E dar forma às coisas muda muita coisa, porque aquilo que parecia um monstro impossível de enfrentar pode se transformar em um desafio específico. Aquela tristeza que parecia não fazer sentido vai acabar te mostrando algo que precisa ser acolhido.
É claro que escrever não resolve todos os problemas. Não existe uma folha de papel capaz de apagar uma dor ou eliminar um medo da noite para o dia. Mas a escrita oferece clareza, e posso afirmar que isso é algo extremamente valioso, pois, muitas vezes, a clareza é o primeiro passo para qualquer transformação.
É só refletir o motivo de tantas histórias de fantasia começarem quando alguém decide atravessar uma porta, ou, mais precisamente, iniciar uma jornada. Simbolicamente, é o mesmo movimento que fazemos quando escolhemos olhar para dentro de nós mesmos. O caminho nem sempre é fácil, mas permanecer parado diante da porta raramente nos leva a algum lugar. Todos nós já tivemos que atravessar uma porta que não queríamos, e tenho certeza que se você não tivesse feito isso, não seria quem é hoje.
Desfecho Cósmico
É, essa foi mais uma das minhas infinitas reflexões de escrita.
No fim das contas, o que queria trazer é simplesmente que a escrita vai muito além de só registrar histórias, ela também é uma ferramenta incrível para nos ajudar a enxergar aquilo que normalmente passa despercebido.
A maior parte das vezes escrevemos para encontrar respostas que não temos.
Essa é a magia que mora nas pequenas coisas. Aquilo que pode ser descoberto sem grandes pretensões, sendo criado em uma tarde qualquer. Quando damos forma ao que sentimos, algo dentro de nós também começa a se transformar.
O medo pode continuar ali. A insegurança talvez não desapareça completamente. Mas agora eles possuem um nome e uma história. E aquilo que antes parecia impossível de compreender passa a ocupar um espaço menor do que ocupava antes.
Aquilo que você evita escrever pode ser exatamente o que precisa ser ouvido. Ou, dito de outra forma, quando damos voz aos nossos monstros, eles costumam parecer muito menores do que imaginávamos.
Escreva. Isso com certeza mudará a sua vida para melhor.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos
Entre versos e universos,
Julia Abreu


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