Cósmico leitor, este post nasceu de dois silêncios.
Faz um tempo que este espaço ficou mais quieto do que o normal. E enquanto eu perambulava pelas minhas próprias pausas, tentando entender o que fazer com elas, descobri que não estava sozinha nisso. @escrita_sem_pudor, um escritor que admiro profundamente, estava vivendo o mesmo tipo de silêncio, só que de um jeito completamente diferente do meu.
Não vou entrar no motivo de cada um. Não é sobre isso que este texto quer falar. O motivo pouco importa perto do que os dois silêncios têm em comum. É mais aquela sensação estranha de sumir um pouco pra poder voltar inteiro.
Porque o silêncio, cósmico leitor, não escolhe quem ele visita. Ele bate na porta de quem escreve todo dia e de quem escreve uma vez por mês, de quem tem milhares de leitores e de quem está começando. A única coisa que muda, de fato, é o que a gente decide fazer com ele. Existe o silêncio que aprisiona, e existe o silêncio que prepara. E a diferença entre os dois não está no tempo que ele dura, está na escolha que fazemos dentro dele.
Foi sobre essa escolha que @escrita_sem_pudor me chamou para escrever. Escrevemos, cada um com sua própria voz, sobre um silêncio que no fim, não foi tão diferente assim.
Minha voz estava só descansando
Não que minha voz tenha se perdido. Só não sei se teria dito algo tão importante quando tudo pedia silêncio. Eu não me calei por não ter mais que dizer, e me entenda, nada teria feito tanto sentido quanto um momento de espera e conexão com algo muito maior do que qualquer palavra seria capaz de expressar.
Quem somos nós quando nada fala tão bem em nosso interior quanto o silêncio que expressamos ao mundo que nos cerca?
Quanto tempo pensei que não deixar minha voz ecoar seria uma maneira de me esconder ou de anular no meio social.
Quanto tempo eu perdi por não ter me levado mais à sério e entendido que precisava me reorganizar silenciosamente para poder encontrar quem eu era de verdade.
Enquanto perambulei pelas minhas ideias, remontando tudo quase do zero e percebendo o quanto estava ainda por significar, não me aprisionar na necessidade de jogar tudo para fora de qualquer jeito foi a melhor opção.
A falta de palavras não me incomodou até que entendi minha maior dificuldade: tratar as palavras com a reverência que elas merecem e demonstrar o valor real que elas possuem.
O processo me exigiu muito mais que concentração, mas a atitude de não me deixar abalar pelo que ainda faltava para que tudo pudesse fazer sentido quando fosse o momento de externar tudo que precisava ser colocado para fora. Não como uma obrigação, mas como uma maneira de compartilhar essa realidade, onde quanto menos ruído se faz, mais conseguimos que nossa voz ecoe mais alto.
E durante o aprendizado que o silêncio nos entrega, nada mais fortificante do que perceber que tudo pode fazer muito sentido após uma visita ao mais profundo de si mesmo e encontrar quem você é de verdade. Sem barulho, sem perfeitamente, sem medo de desagradar, sem a máscara que sugere uma maneira de aceitação social.
Quando se encontra o verdadeiro eu, percebemos que o silêncio era apenas uma maneira de não jogar mais coisas por cima e poder deixar uma luz que serve de guia para voltarmos para a superfície… onde tudo pode ser diferente quando se quer viver o novo e andar com as próprias pernas.
Assim, devagar, que entendi que voltar à superfície não significava recomeçar do nada, mas trazer comigo tudo o que o silêncio havia me ensinado a carregar sutilmente. As palavras que antes pesavam como uma dívida a pagar passaram a soar como um convite que eu mesma podia aceitar, no meu tempo.
Hoje sei reconhecer a diferença entre o silêncio que aprisiona e o silêncio que prepara. O primeiro nasce do medo, se alimenta da comparação, e nos faz menores do que somos. O segundo nasce da escuta, se alimenta da verdade que ainda estava sendo lapidada dentro de nós, e nos devolve inteiros a nós mesmos… Só que mais firmes, mais nossos.
Posso falar que essa foi uma das maiores lições que carrego? É, pode ser que sim… Não é o barulho que prova que existimos, nem o silêncio que prova que desistimos. Existe um meio-termo sagrado, onde nos permitimos demorar o quanto for preciso, para só então falar com a voz que realmente nos representa. E quando essa voz finalmente atravessa o silêncio, ela não pede licença, só começa a ecoar, porque sempre foi verdadeira.
Se você também está no meio de um silêncio agora, cósmico leitor, que este texto sirva de sinal. Lembre-se: você não sumiu, só está se organizando por dentro. E quando a voz voltar, ela vai ecoar mais verdadeira do que nunca.
Gratidão ao @escrita_sem_pudor por dividir esse caminho comigo. Nosso silêncio foi diferente, mas o reencontro com a palavra é o mesmo.
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