Cósmico leitor, quantas vezes você já confundiu fascínio com desejo? Já esteve numa sala, ou numa conversa, e sentiu aquele calor que parece prometer alguma coisa, sem nunca saber dizer exatamente o quê?
Foi daí que nasceu este texto. Escrevi ele a quatro mãos com @gugosauer, autor de Dandis (@dandiestilo), depois de uma conversa sobre um tipo raro de mulher, aquela que carrega fogo e razão ao mesmo tempo, sem deixar nenhum dos dois vencer o outro.
Fomos atrás dessa figura nas deusas, porque foi lá que a encontramos primeiro. Em Vênus, que arde sem pedir licença, e em Minerva, que observa sem se entregar.
Quisemos escrever sobre o que acontece quando as duas habitam o mesmo corpo. Sobre a mulher que não precisa ser desejada pra existir, e que por isso mesmo se torna inesquecível.
Espero que gostem tanto quanto nós gostamos de escrever.
Vênus e Minerva
Ela não chegou como quem pede espaço, chegou como quem transforma o lugar. Bastou o primeiro passo para que algo na sala mudasse de temperatura, sem que ela levantasse a voz ou buscasse ser vista. Um homem no canto do salão parou de falar no meio da frase. Uma taça tremeu na mão de alguém que fingia não olhar. Havia nela aquele calor antigo que os poetas atribuem a Vênus, um convite silencioso, quase perigoso, como se cada gesto fosse capaz de incendiar o mundo sem jamais perder a delicadeza.
Ela jamais precisou pedir que a olhassem. Havia algo nela que suspendia o ruído do mundo por um instante, como se toda distração perdesse o direito de existir quando seus olhos encontravam os de alguém. Cada gesto parecia esconder uma promessa, cada silêncio parecia um convite que talvez nunca fosse aceito.
O homem que a observava de longe sentiu isso primeiro no corpo, antes de entender no pensamento. Reparou no jeito como ela inclinava a cabeça, no silêncio que vinha antes de qualquer resposta, e na boca. Sim, aquela boca. Uma boca que parecia prometer algo sem prometer nada. Aproximou-se, ofereceu vinho, ofereceu conversa, ofereceu, sem dizer, o resto da noite. Ela sorriu, e naquele sorriso havia todo o fogo que ele esperava encontrar, generoso, quase excessivo, como se ela soubesse exatamente o efeito que causava e não se importasse em escondê-lo.
Mas a resposta dela veio como uma pergunta sobre astronomia, e o homem sentiu o chão do desejo se deslocar um pouco. Atrás do calor havia uma distância exata que ela mantinha entre si e qualquer pessoa que se aproximasse, uma disciplina quase arquitetônica, o tipo de lucidez que os antigos chamavam de Minerva, serena, inalcançável, presente sem jamais se render.
Cada pergunta que ele fazia era devolvida com outra, mais afiada, como se ela estivesse menos interessada em ser desejada e mais interessada em pensar. O homem não percebeu, no calor do momento, que estava sendo estudado e não seduzido. Foi embora, mais tarde, achando que tinha perdido uma chance, sem saber que jamais existiu chance nenhuma. Existiu apenas a curiosidade dela, que já se havia saciado antes mesmo da despedida.
Os homens acreditavam desejar sua beleza, mas era outra coisa que os desarmava. O fogo nela não implorava por testemunhas. Existia por si mesmo, silencioso, soberano, e justamente por não precisar de ninguém para arder, tornava-se irresistível. Há chamas que aquecem. A dela iluminava, e toda luz verdadeira cobra um preço de quem ousa encará-la por tempo demais.
Era assim com ela sempre. Quem se aproximava sentia o fogo e confundia aquilo com promessa, mas era apenas o calor que sobra quando alguém pensa com a intensidade de quem também sente. Vênus lhe dera esse fogo, mas recusara o destino de viver apenas por ele. O desejo habitava seu corpo como uma música antiga, intensa e inevitável, sem jamais governar sua vontade.
Ela terminou a taça de vinho, agradeceu a noite com um gesto breve e foi embora sozinha, como sempre ia. O homem ficou ali, um pouco confuso, mas também um pouco mais sábio e sozinho, tendo tocado, sem saber, duas naturezas ao mesmo tempo, sem poder ficar com nenhuma.
Algumas mulheres passam pelos olhos. Outras atravessam a imaginação e permanecem ali, muito depois de terem ido embora.
Vênus e Minerva nunca competiram entre si. Sempre foram a mesma mulher, inteira, recusando o destino de escolher apenas uma.
Gratidão ao @gugosauer, autor de Dandis (@dandiestilo), por emprestar seu olhar e sua escrita a esse fogo. Foi bom criar isso.
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