Livro: Comer, Rezar, Amar
Autora: Elizabeth Gilbert
Páginas: 360
Comer, Rezar, Amar já começa com a coragem de admitir que algo acabou antes de saber o que vem depois.
Existe uma sensação que quase todo mundo já teve em algum momento, e que é quase impossível de explicar sem parecer ingrato, porque não é falta de nada concreto.
É aquela estranheza silenciosa de olhar para a própria vida (o trabalho, o relacionamento, toda a rotina que deveria funcionar) e perceber que algo, em algum lugar, saiu do eixo. Não de forma dramática. Mas simplesmente porque o que era seu não parece mais seu.
Foi exatamente esse sentimento que Elizabeth Gilbert colocou nas primeiras páginas de Comer, Rezar, Amar, e por isso que o livro já tocou e toca tanta gente.
Ela não escreveu sobre uma crise extraordinária. Ela escreveu sobre toda aquela infelicidade silenciosa que aparece no meio de uma vida que, no papel, deveria ser suficiente.
E isso, de alguma forma, é muito difícil de ignorar. Muito mesmo.

Sinopse
O livro começa no chão de um banheiro.
Liz está casada. Tem uma casa. Uma carreira. Tem tudo o que tinha planejado ter. E ainda assim está alí, às três horas da manhã, chorando sem conseguir explicar muito bem por quê.
Essa cena abre um dos livros autobiográficos mais honestos que já lí, porque não há um vilão. O marido não é monstruoso. A vida não é trágica. O problema é muito mais difícil do que isso. A vida é boa, mas essa não é a vida dela, ou pelo menos, a vida que de fato ela precisa.
O divórcio vem depois. Doloroso, longo e com muita culpa. E, antes mesmo de se recuperar, vem um novo relacionamento que podemos considerar intenso e importante. Ela ama esse homem. Mas percebe que está usando esse amor como mais uma forma de não ter que se encontrar. Que está construindo, de novo, uma versão da própria vida que orbita ao redor de outra pessoa.
A decisão de deixar esse relacionamento também é difícil. Talvez mais do que o divorcio. Porque aqui não existe raiva ou ruptura clara. Muito pelo contrário, há um afeto genuíno, mas ainda assim, ela precisa ir.
E então vem a decisão mais radical de todas: interromper completamente a própria vida por um ano.
Ela divide esse ano em três países (Itália, Índia e Indonésia), cada um representando uma parte essencial da reconstrução. Comer. Rezar. Amar. Nessa ordem, e não por acaso.
Análise do Livro
O que mais impressiona em Comer, Rezar, Amar é que Gilbert não tenta parecer forte o tempo inteiro, e também não romantiza a própria dor. Ela escreve sobre confusão, culpa, medo e solidão com uma naturalidade que faz parecer que estamos ouvindo uma amiga contar a própria história.
Antes mesmo das viagens começarem, já entendemos que o verdadeiro problema nunca foi o casamento ou o relacionamento seguinte. Era a distância que ela havia criado entre quem era e quem acreditava que precisava ser.
Itália – Comer
A primeira parada é Roma, e é proposital que ela comece pela Itália, porque antes de rezar ou amar, é preciso aprender a simplesmente estar.
Gilbert chega sem uma missão espiritual. Chega com fome (literal e metaforicamente). E o que ela descobre ali é a capacidade de sentir prazer sem justificativa. Algo que muitos adultos vão perdendo pelo caminho.
Uma cena que fica na memória é quando ela está numa pizzaria em Nápoles e chora enquanto come. Não de tristeza. De gratidão. Algo parecido com espanto, sabe? Como se o próprio corpo estivesse lembrando que tinha esquecido como é sentir alegria de forma simples, sem mérito.
A Itália é barulhenta e desordenada. É a língua italiana que ela estuda com obsessão porque o idioma em si já é uma forma de prazer. São as refeições que duram horas, os amigos que ela faz sem esforço, as caminhadas sem destino.
A felicidade não é produtiva aqui. Isso é revolucionário para alguém que passou anos tentando construir uma vida que fizesse sentido para todos.
Índia – Rezar
A Índia é a parte mais difícil do livro, não por acontecerem grandes dramas, mas por ser onde ela para de fugir.
Gilbert vai até Ashram no interior do país e mergulha numa rotina de meditação, silêncio e disciplina espiritual. E o que ela encontra não é paz imediata. É ela mesma, sem distrações.
Tem um capítulo em que ela descreve a meditação como uma luta constante. A mente que não para. Os pensamentos que voltam. A culpa que insiste em aparecer. E a lenta, exaustiva descoberta de que rezar (nesse sentido amplo que o livro propõe) não é pedir nada. É escutar. Aprender a ficar com o silêncio sem precisar preenchê-lo.
A Índia é sobre rendição. Uma rendição que exige mais do que qualquer luta. De aceitar que certas respostas só aparecem quando finalmente se para de procurá-las com tanta urgência.
Nessa parte do livro que ela começa, de verdade, a se perdoar.
Indonésia – Amar
A última parada é Bali, e o livro muda de tom.
Tem toda a leveza na Indonésia. Uma abertura que não existia antes.
E aí vem Felipe, um brasileiro, vivendo em Bali depois de um divórcio próprio. O relacionamento que surge entre eles é diferente de tudo que veio antes, pois ela não está procurando ser salva. Não está preenchendo um vazio.
Todavia, ela resiste. Não quer abrir mão da liberdade que custou tanto para conquistar.
Ela e o namorado anterior se falam e os sentimentos antigos aparecem. E são reais. Mas ela não deixa que reescrevam a rota. Continua firme no caminho que escolheu, mesmo quando seria mais simples voltar.
Essa firmeza, pra mim, é uma das coisas mais impressionantes do livro inteiro.
Ela só consegue amar de verdade depois de ter deixado de precisar do amor para se sentir inteira. De tudo que ela construiu na Itália e na Índia, De toda a fome que aprendeu a honrar e de todo o silêncio que aprendeu a habitar, o amor vira uma consequência de tudo isso.
Reflexões sobre o Ato de Criar
A forma como Gilbert escreve é linda e muito intencional.
Cada país tem um ritmo de escrita diferente. A Itália é expansiva, quase festiva. A Índia é densa, introspectiva, pesada no bom sentido. A Indonésia é equilibrada, leve. Como se a própria prosa fosse acompanhando a transformação da autora em tempo real.
Isso me fez pensar muito sobre estrutura como narrativa.
Não são apenas três viagens, mas sim, três estados emocionais. E a forma como o livro está organizado faz o leitor atravessá-los junto, sem que precise ser explicado. Você sente a descompressão da Itália. Sente o peso da Índia. Sente a abertura de Bali.
Como escritora, essa é uma das coisas que mais admiro na obra.
A construção intuitiva de um livro que poderia ter sido apenas um relato de viagens e se torna, pela escolha de cada palavra e cada pausa, uma experiência de dentro para fora.
Tudo isso só deixa mais claro como podemos organizar uma narrativa para que o leitor sinta antes mesmo de compreender. É indiscutível como isso é fantástico.
Pontos Altos:
- Abertura devastadoramente honesta (a cena do banheiro é uma das mais humanas que já li numa autobiografia)
- A estrutura em três países que é também uma estrutura emocional, com ritmo e linguagem próprios em cada etapa
- A forma como Gilbert escreve sobre prazer, espiritualidade e amor sem transformar nenhum dos três em clichê
- A personagem de Richard, na Índia (o contraponto perfeito para uma seção que poderia ser pesada demais)
- A decisão de não deixar os sentimentos antigos definirem o caminho, e a coragem de continuar mesmo assim
- A sensação constante de estar dentro da experiência, não observando de fora
Pontos de Atenção:
- O ritmo contemplativo pode ser lento para quem espera ação ou narrativa mais linear
- As reflexões internas ocupam mais espaço do que os acontecimentos em si (o que é uma escolha, mas pode estranhar)
- Alguns trechos da seção indiana se estendem além do necessário
- Leitores que preferem ficção ou distância narrativa podem ter dificuldade com o formato tão confessional
No fim, Comer, Rezar, Amar nunca foi um livro sobre viajar.
Foi um livro sobre voltar.
Voltar para si. Voltar para uma versão da própria vida que finalmente faz sentido, não para os outros ou para as expectativas que foram sendo empilhadas ao longo dos anos, mas para aquela voz interna que ficou em silêncio por tempo demais.
O que Gilbert fez foi corajoso de uma forma que raramente aparece nas histórias. Não é a coragem de enfrentar um inimigo ou superar um obstáculo claro. É a coragem de admitir que algo acabou antes de saber o que vem depois. De soltar o conhecido sem ter o desconhecido garantido. De continuar firme numa jornada que ela mesma não conseguia explicar completamente para ninguém.
Acredito que seja por isso, inclusive, que tantas pessoas se reconhecem nesse livro. A infelicidade silenciosa que abre a história não é particular. Só é humana. E a possibilidade de atravessá-la, de sair do outro lado com mais de si mesma do que entrou, é uma das coisas mais bonitas que a literatura pode oferecer.
Nota final:
(5 de 5 estrelas)
Para quem acredita que algumas viagens não mudam o lugar onde estamos, mas mudam a forma como voltamos para casa.
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