Cósmico leitor, este texto chegou um pouquinho atrasado, e eu admito sem drama. O Halloween já passou e a abóbora já foi pro lixo, mas prometi uma história nascida das palavras que vocês mandaram na caixinha, e promessa cósmica não vence. Gostei muito dessa leva. Acabou sendo um papagaio pirata, um gato com hora marcada pra falar e um vira-lata de marquise que entrou pra família. Se você ainda não conhece algum deles, deixei os links das histórias anteriores logo abaixo, cada um com um resuminho. Agora acende uma vela, de led mesmo, e vem ver o que aconteceu na varanda ao lado.
Halloween na Varanda do Lado
Luna acreditava que uma fantasia bem escolhida resolvia metade da vida social de uma pessoa. A outra metade ficava por conta de uma planilha com horário de saída, trajeto e uma aba chamada “plano B caso o Dante fique dramático na portaria”. Naquela tarde ela já tinha revisado a aba três vezes e descoberto que o plano B também estava dramático.
O corredor do apartamento cheirava a três perfumes ao mesmo tempo, porque Luna não conseguiu decidir e usou todos, na esperança de que se anulassem. Dante, diante do espelho, enfrentava a maior crise da noite. A fantasia de vampiro tinha sofrido uma substituição de última hora, já que a capa original saiu da máquina rosa depois de uma briga com um moletom vermelho. A capa nova era um lençol preto recortado, e no colarinho ele tinha passado um frasco de ectoplasma de festa, “pra dar ar de quem acabou de atravessar uma parede”. O gel verde agora escorria devagar pelo pescoço.
— Um vampiro não envelhece, Luna — declarou ao espelho. — Ele só acumula boletos pela eternidade.
— Seu vampiro está pisando no próprio lençol.
— É uma escolha estética. Halloween é a única festa em que o renascimento é obrigatório e o morto ainda paga a conta.
Luna, de chapéu de bruxa comprado numa loja de rua por um valor que não merecia ser dito em voz alta, foi à sala dar o último retoque na decoração. Tinha colado na vidraça um gato preto de papel, recortado por ela mesma, e colocado uma vela dentro da abóbora esculpida na véspera. O sorriso da abóbora saiu torto, e Dante garantiu que era “um humor obscuro que eu respeito”. A vela era de led. Depois da história do apagão, Luna dizia que já tinha acendido vela suficiente pra uma vida inteira.
Tobias ocupava o parapeito da sacada e olhava o gato de papel com a ofensa muda de quem foi substituído por um pedaço de cartolina. Segundo uma lenda particular que ele mesmo mantinha, uma vez por ano, na noite de 31 de outubro e só até a meia-noite, tinha direito a bater um papo. Descobrira isso no Halloween passado. Agora, estava ali, ansioso para que isso acontecesse novamente.
Do outro lado da divisória, a tv do Seu Osvaldo exibia uma maratona de programas antigos, em volume de quem não ouve do ouvido esquerdo e finge que ouve do direito. E na varanda do 502, dentro de um calabouço de arame do tamanho de um guarda-roupa, um papagaio de chapéu tricórnio e tapa-olho de plástico encarava a vizinhança com o único olho disponível. A fantasia era obra do Seu Osvaldo, aposentado, que jurava que a ideia tinha sido do próprio bicho.
— Vou fazer uma maldade! — gritou o pirata. — Vou fazer uma maldade!
Luna levou um susto tão grande que quase derrubou a abóbora.
— Xuxa! — completou o papagaio, direto da tv. — Sextou!
Era sábado. Tobias anotou a ofensa com os bigodes.
— Esse bicho tem tendência ao fascismo de varanda — Dante opinou da porta, de capa e dentes de plástico. — Manda em todo mundo e não escuta ninguém.
— Ele só repete a tv.
— Com tapa-olho, Luna.
— Fato é que o Seu Osvaldo é o único que empresta furadeira e eu não vou arrumar vizinho inimigo. — Ela ergueu a voz pra qualquer papagaio ouvir. — Eu confio nele!
Luna se abaixou até o parapeito e apontou o dedo pro gato.
— Você se comporta, tá? E nada de reagir a pássaro.
Tobias olhou pra ela com a expressão de quem arquiva uma frase pra cobrar depois.
A porta bateu, a chave girou, e o apartamento ficou em silêncio, o que na prática significava que o silêncio era do Tobias e o barulho era do pirata. Lá embaixo, o céu fechava cor de laranja e a rua se enchia de criança fantasiada arrastando sacola de doce. Foi nesse cenário que um cachorro caramelo de orelha torta apareceu na esquina, com o passo de quem tem compromisso mesmo sem ter nenhum.
Tobias reconheceu a espécie. Vira-lata de marquise, daqueles que conhecem a cidade melhor que o prefeito. O cachorro parou diante de uma mãe com uma criança vestida de abóbora, baixou as orelhas, arregalou os olhos até virarem duas jabuticabas e encolheu a pata dianteira direita, que até um segundo antes estava em perfeito serviço.
— Mãe, ele tá triste!
— Ai, coitadinho!
Pão de queijo. Tobias assistiu ao cachorro aceitar o pão com a doçura de comercial de margarina e a dignidade de um embaixador recebendo condecoração. Quando a mãe virou a esquina, a pata voltou ao chão como se nunca tivesse saído de lá.
Dez metros adiante, um homem saiu da pizzaria com uma caixa. O cachorro repetiu a apresentação, orelhas, jabuticabas, pata, só que dessa vez era a esquerda. Tobias notou o erro. Notou também que o resultado foi uma fatia inteira de calabresa, e resultado é o que importa.
Tobias, que passara a vida acreditando que ninguém dominava o ofício de parecer coitado melhor do que ele, sentiu algo subir pelo peito. Era respeito. Odiou na hora.
O cachorro se acomodou na calçada, debaixo da sacada, pra devorar a calabresa com calma. Foi quando o pirata percebeu.
— Assassino! — gritou o papagaio. — O assassino é o mordomo! Vou fazer uma maldade!
O cachorro ergueu a cabeça e procurou a origem do escândalo. Não achou o papagaio. Achou os olhos amarelos do Tobias, no parapeito, e os dois se encararam por um segundo inteiro.
— Sextou!
O cachorro levantou uma sobrancelha, coisa que cachorro sabe fazer quando quer. Tobias fechou os olhos devagar, o gesto universal dos felinos para “eu sei, eu sei”. Lá embaixo veio um suspiro longo, de quem concorda. Duas espécies, dois mundos, um único e profundo desprezo compartilhado.
O escândalo atraiu Seu Edson, o porteiro, que saiu da guarita com uma vassoura na mão. Pro cachorro, vassoura era mais familiar que cartão-postal. Ele recuou e já ia disparar pela calçada quando Tobias soltou um miado de sirene de ambulância, tão agudo que Seu Edson olhou pra cima com a mão no peito.
— Calma, gatinho! Calma!
Quando o porteiro voltou a olhar pra baixo, o cachorro tinha sumido na esquina. Tobias se ajeitou no parapeito como se nada tivesse acontecido. Não ia explicar aquilo pra ninguém.
Minutos depois, o caramelo voltou e sentou-se debaixo da sacada. Ficaram ali, o gato lá em cima e o cachorro lá embaixo, feito dois velhos num banco de praça, vendo a rua passar e discordando de tudo em silêncio.
Faltavam doze minutos pra meia-noite quando Luna e Dante entraram no prédio, ela com o sapato na mão, ele com a capa suja de cerveja e o ectoplasma já endurecido no colarinho. A festa tinha sido curta, porque o Dante descobriu que vampiro de lençol não é convidado pra segunda rodada. Na calçada, o cachorro caramelo se levantou, veio na direção deles com a pata direita levemente encolhida e, a meio caminho, pareceu lembrar que na esquina anterior era a esquerda, e trocou de perna sem cerimônia.
— Ele trocou de perna — Dante disse.
— Eu vi.
— Isso não te preocupa?
— Me deixa mais interessada.
O cachorro os seguiu até o elevador, até o corredor, até a porta do 501, e sentou-se no capacho com a postura de uma gárgula. Dante, três passos atrás, brigava com o gel verde preso no cabelo. Luna abriu a porta e encontrou Tobias sentado no meio da sala, imóvel, com uma naturalidade de quem nunca saiu do lugar.
— Amanhã a gente vê o regimento do condomínio — ela sussurrou pro cachorro, culpada. — Hoje eu não consigo…
— Luna.
Ela parou com um pé no ar. A voz era rouca, de quem não usava as cordas há um ano.
— Segunda vez na vida que eu falo, então presta atenção — disse Tobias, sem sair do lugar, com um olho no relógio da parede. — Faltam onze minutos pra meia-noite, vou ser rápido. Deixa o cachorro entrar. Ele fez onze apresentações hoje, três delas em nível profissional. Alguém com esse talento merece teto. E perdão por terça-feira às três da madrugada. Eu sei o que eu fiz.
Dante levantou a cabeça do gel.
— O que foi?
Luna olhou pro gato. O gato lambia a pata, como se nunca tivesse tido uma palavra na vida. No relógio da parede, faltavam nove minutos pra meia-noite, e ele sabia contar.
— Nada. O vinho — ela disse, e abriu a porta por inteiro.
O vira-lata entrou devagar, inspecionou a sala com o olhar de fiscal sanitário e farejou os perfumes de Luna que ainda pairavam no ar, três ao mesmo tempo, sem uma única nota de comida. Notou as caixas da mudança que ainda sobravam nos cantos e, no meio da sala, a almofada. Era a almofada do Tobias, com a marca de uma ocupação de longa data.
Cachorro e gato se olharam. Passaram uns bons três segundos sem que ninguém dissesse nada. Então o vira-lata deitou na pontinha da almofada, só o canto, com o respeito de quem pede licença.
— Você pediu por mim — disse o cachorro, com sotaque de esquina. — Gastou a fala do ano inteiro com isso?
Tobias levantou a cabeça devagar. Em onze meses de silêncio planejado, ele não tinha previsto aquela possibilidade.
— Você fala?
— Sempre falei. Vocês é que só puxam assunto com bicho de pedigree. — O cachorro bocejou. — Pros humanos eu sou um resmungo bonitinho. Pra gente de marquise, sou o Diógenes.
Pros humanos, de fato, aquilo soava como um cachorro resmungando com muito sentimento. Luna, tirando o sapato, achou “um pouco articulado demais”. Dante, no corredor, achou que o ectoplasma tinha subido à cabeça.
— Eu ouvi tudo da calçada — Diógenes continuou. — “Deixa o cachorro entrar, ele fez onze apresentações, três em nível profissional.” Foi lindo. Quase chorei. Chorei, na verdade, mas só com a pata esquerda.
— Eram onze minutos — Tobias disse, entre os dentes. — Os únicos onze minutos do meu ano.
— E você gastou dois e meio comigo. Que gesto.
— Eu gastei foi o melhor discurso que eu já escrevi. Ensaiei desde agosto.
— Ensaiou pra mim?
— Ensaiei pra reclamar da cartolina. Aí você apareceu com a perninha dobrada e eu me desviei do assunto.
Diógenes ajeitou a orelha torta, comovido e sem a menor pressa.
— Ainda sobraram uns minutinhos — ele disse. — Reclama. Eu escuto.
Tobias abriu a boca pra reclamar do papagaio, da cartolina, do ano, da vida, e foi nesse exato instante que o cachorro começou a falar.
— Sabe, a saudade de uma cama que eu nunca tive acabou de ser quitada, e olha que foi por pouco, porque no mês passado eu quase fui adotado por um açougueiro, mas o açougueiro tinha um cachorro de raça que me olhava torto, e raça é um negócio complicado, eu aprendi com um poodle na praça que…
— Diógenes.
— …que cada pelo tem uma história, e a almofada tem pelo de gato, mas eu decidi não discutir esse detalhe hoje, por respeito, e por falar em respeito, você sabia que o porteiro…
— Eu pedi pra você ficar. Não pra você contar a sua vida.
— Mas eu fico e conto. É um pacote.
Tobias fechou os olhos. Em algum lugar da sala, um relógio fez o barulho de quem se prepara pra bater as doze badaladas.
— Luna, eu me enganei, não quero que…
O primeiro som saiu torto. O segundo já era um miado. O relógio terminou de bater a meia-noite, e o direito de falar do Tobias venceu junto com o dia 31, no meio da frase.
Diógenes esperou um instante, com a atenção de um bom ouvinte.
— Não quer? — perguntou. — Termina. Ah, é. Você não pode.
O gato abriu um olho, mortalmente sério.
— Pois eu tenho o ano inteiro — disse o cachorro, se ajeitando na almofada. — Cachorro de rua não tem prazo de validade. Vou começar pelo dia em que fugi de três carros e uma vassourada, e depois a gente vê.
Tobias fechou o olho de novo. Na cabeça dele, uma única frase se formava, em letras maiúsculas.
Às seis da manhã, uma voz atravessou a parede do quarto, firme e perfeitamente reconhecível.
— Deixa o cachorro entrar! Faltam onze minutos pra meia-noite! Perdão por terça-feira às três da madrugada! Eu sei o que eu fiz!
Dante sentou na cama com o cabelo ainda verde.
— Luna.
— Hm.
— O papagaio acabou de pedir perdão em nome do nosso gato.
— Eu falei que o Tobias tinha falado.
— Você disse que era o vinho.
— Eu disse que era o vinho, mas agora tem testemunha com tapa-olho.
— Fugi de três carros e uma vassourada! — gritou o pirata, do outro lado. — Fugi de três carros e uma vassourada!
Dante olhou pra Luna.
— Isso também é do gato?
— Esse eu acho que é do cachorro.
— O cachorro fala?
— Aparentemente, sim.
Dante ficou um tempo calado, olhando o teto, e então começou a rir, sem conseguir parar. Luna riu também. Na sala, sobre uma almofada cinza que agora acomodava duas espécies, um gato e um cachorro não dormiam. Um falava, sem parar, desde a meia-noite. O outro, mudo e derrotado, só encarava o teto, repassando o único minuto da vida em que tinha dito aquilo em voz alta.
O Tobias voltaria a falar só no Halloween seguinte. Até lá, tinha uma almofada pra dividir e um papagaio e um cachorro pra suportar, sem prazo e sem botão de desligar. Em algum canto do peito, ele já redigia a reclamação formal. Era o começo de uma felicidade extraordinariamente barulhenta.

Imagem gerada com IA para fins ilustrativos

Obrigada a todo mundo que mandou uma palavra pra caixinha. Foram sorteadas 24 palavras e eu me diverti com cada uma delas, até com as mais improváveis. Mês que vem tem mais, e a próxima história cósmica também vai nascer das palavras de vocês, então fiquem de olho no story lá no insta.
Entre versos e universos,
Julia Abreu
Continue lendo:
O dia em que meu gato decidiu falar porque foi a primeira noite em que o Tobias falou, e dá pra entender de onde vem a lenda particular dele.
Existem pessoas que aprendem a amar no escuro porque conta como Luna e Dante se conheceram, num apagão, dividindo um pacote de velas.
O Barulho do Recomeço porque mostra a mudança dos dois pro apartamento novo, com o Tobias de plateia.
Diógenes, o Cão Filósofo porque apresenta o cachorro de marquise que, nesta história, finalmente ganha uma almofada.


Deixe um comentário